... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Infantilidade ou maturidade ?

"Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever ? Acho que assim: vem-me uma ideia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.


Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los... Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados ? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta ? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante, ainda, ou nunca serei."

                                                                           Clarice Lispector


É na infantilidade que recuso-me a enfrentar as dores sofridas; dores de uma sociedade individualista, dores da desesperança, dores do sofrimento da deslealdade, dores dos que foram sem despedida, dores das perdas, dores do sofrimento alheio, dores do desamor e todas as dores do mundo... 

O tempo passa rápido demais deixando na lembrança os bons momentos efêmeros e, também é o mesmo tempo que passa lento demais quando há feridas abertas. 

Essa impulsividade de se entregar sem questionar o amanhã, é a criança latente que não quer perder mais tempo. Vai do riso ao choro e vice-versa, mas não cansa de amar. 

Viver o jogo infantil de esconde-esconde, nada mais é do que vivenciar a latente alegria de sorver ao máximo a felicidade líquida que depois escorrerá pelos pés, que estão descalços para aproveitar ao máximo o frescor desses momentos. 

Pobre de quem já deixou sua infância simbólica e amadureceu suas emoções previsíveis se adequando ao duro realismo. Jamais, entenderá a vivacidade das boas gargalhadas que causa estranheza pelas regras da etiqueta e dos prantos temendo as críticas da fraqueza.

Tenho a idade emocional de uma adolescente que sonha com príncipes encantados, tenho a idade mental de uma idosa que sabe dos disfarces dos sapos. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Do amor ao ódio...


"Se uma pessoa encontra obstáculos intransponíveis nos seus esforços para experimentar o amor ou a satisfação das exigências sexuais, começa a odiar. Mas o ódio não pode ser expresso. Deve ser refreado para evitar a angústia que causa. Em suma, o amor contrariado causa angústia. Igualmente, a agressão inibida causa angústia; e a angústia inibe as exigências do ódio e do amor."  (Wilhelm Reich  in  A Função do Orgasmo)



Aonde ela estava quando você mais precisou... ?



"Vestia-se, pintava-se com cuidado, mas seu rosto endurecido, já gasto, não podia suscitar um novo amor; poderia ela própria amar outro depois de vinte anos à sombra de um homem ? Restam ainda muitos anos de vida quando se tem 40 anos. 


Revejo outra mulher que conservava olhos belos, traços nobres, apesar de um rosto inchado pelo sofrimento e que deixava, sem o perceber sequer, as lágrimas escorrerem-lhe pelas faces, em público, cega e surda. Agora, o deus diz a outra as palavras inventadas para ela; rainha destronada, não sabe mais se jamais reinou sobre um verdadeiro reino." (Simone de Beauvoir in Segundo Sexo)

Mesmo vivendo num exílio sentimental, disfarçado pela felicidade de fachada, não havia como evitar as notícias vindas de lá. Aonde, meu par saciava-se na hipocrisia de um romance fadado ao fracasso. 

Ciente de seu luto pela dor, eu era impedida de dar-lhe colo e o consolo de que precisava. Ninguém, sabia lidar com sua angústia da perda como eu, que pelo timbre de voz e o seu semblante pesado suplicava aconchego. A substituta não tinha  tempo para se sensibilizar àquela dor que era só dele. Afinal, o tempo destinado a fantasia era efêmero e qualquer mudança de expectativa seria rejeitada. Somente, desejo e prazer estavam escritos na crônica do romance clandestino, o luto não era bem-vindo e em busca do sol deu-se a ausência hedonista, numa fuga impiedosa para o mar explicitando sua felicidade para quem quer que saiba. 

Não havia, como fazê-la sentir-se na pele do outro, o narcismo em comum de ambos, agora se vingara do próprio ingrato que me abandonara a própria sorte. Talvez, seu arrependimento nunca o faça voltar, mas certamente seu rancor pelo abandono emocional da atual será alimentado por inúmeras desconfianças e traições iminentes. Pois, sua natureza cruel e fria não hesitará na vingança. Pois, quando não há amor legítimo, a deslealdade vive a espreita, apenas esperando a oportunidade certa para se fazer presente. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Intrusão...


Confissões de culpa...



"O ego é dotado de um poder, de uma força criativa, conquista tardia da humanidade, a que chamamos vontade." Carl Jung




Não conter a vontade e transformar o desejo em ato sem previsão das consequências, pode gerar culpa. E, foi assim, que Julia cedeu aos encantos de Antônio, depois das tantas investidas e mensagens carinhosas de amor. 

Na sua tranquilidade da solidão exilada, de repente chega a mensagem: "Lindona, qual boa de hoje ?". Por mais que se desse silente, ele insistiu e Julia respondeu. Afinal, um drink regado de bom papo não era de todo mau. Até porque, Antônio era extremamente culto, inteligente, bonito, meigo e educado, todos os predicados de um homem dos sonhos, se não fosse pelo simples fato de ser compromissado. 

Pouco tempo antes, Julia teve um brevíssimo romance com Antonio, sem as vias de fato, de forma platônica, em que ambos estavam saindo de uma separação com seus respectivos pares. Julia apenas, serviu de conselheira e influenciou-o a retornar seu casamento, na intenção inconsciente que amenizar a dor do seu próprio fracasso conjugal. 

No entanto, a toda crise Antônio como um dependente emocional procurava Julia, se interessava em saber da sua vida e de uma forma ausente estava sempre se fazendo presente. Então, ela respondeu: "Você venceu. Me dê meia-hora que chego." 

O tempo estava ameno, um vestido leve e suave, com acessórios artesanais, cabelos úmidos, um toque de lavanda, bastava para o encontro despretensioso nas redondezas do bairro. Mas, a noite hedonista regada aos destilados e marcada por assuntos existenciais foram suficientes para que Julia se encantasse novamente por Antônio, cujo discurso da conquista transbordava pelos olhos ternos e brilhantes daquele homem sensível e emocionado. 

A cada argumentação de Julia era correspondida com um olhar profundo e estático, como se ele estivesse embriagado ao som mântrico da sua voz mole. Em que não havia economias aos elogios despendidos, seja pela voz que julgava sensual, pela oferta de assuntos ou pela beleza endurecida da mulher que estava disposto a amar. Embora, houvesse divergências em pontos de vistas fundamentados, ele em plena sabedoria passiva lançava sua opinião na mais tênue elegância. 

No entanto, a admiração não bastava para que Antônio suportasse o desejo incontrolável pela mulher almejada.  De mansinho ele deslizava seus dedos suavemente na pele fresca do braço de Julia, até dedilhar os longos cabelos, os beijos miúdos pelos cantos da boca, os segredos ao pé do ouvido com os arrepios na nuca foram o suficiente para banir o super-ego de Julia e derreter todo o gelo de sua alma amargurada.

Já, não havia como controlar mais a vontade, então Julia o puxou contra o peito num arrobo inconsequente para um beijo molhado, entrelaçando as línguas cansadas dos discursos ao convite clandestino há tempos adiado. Ao caminho do refúgio, suas mãos dadas suavam de ansiedade, juntamente com as risadas intercaladas das músicas cantaroladas num ritmo desafinado na cumplicidade de ambos. 

Num ritual lascivo, Antônio vagarosamente desnudava a anatomia da amada, intercalando beijos módicos ao som de sussurros quase inaudíveis até tê-la completamente entregue. Na afeição simultânea dos olhos nos olhos, lágrimas eram sorvidas mutualmente até o romper das culpas com o descanso das almas paralisadas na fantasia novamente adiada.

E, assim um breve bilhete de Julia era pousado ao lado ausente da cama motivado pelo remorso: "Não podemos alcançar o nirvana, sem resolver as pendencias latentes que angustiam nossos espíritos. Estamos no lugar errado, na hora errada e no momento errado, contradizendo Chaplin... Enfim, não podemos regojizar a transgressão com a culpa, se não formos absolvidos. Obrigada, pela noite. Adeus".

domingo, 2 de dezembro de 2012

Filhos descartáveis...


"Foi concebido um varão, converta-se esse dia em trevas, que deus lá do alto não lhe dê atenção nem a luz sobre ele resplandeça, que dele se apoderem as trevas e obscuridade, que as nuvens o envolvam e os eclipses o apavorem." 
José Saramago in Caim



Ao adentrar na sala pela manhã trazendo as xícaras para o café da cozinha, pude ouvir um despertar esfuziante. - Bom dia, Mãezinha ! 

Animado para um encontro familiar, pude sentir o quanto ele ainda, clamava pela convivência com os irmãos. Na qual, era evidente a minha ausência e, mesmo assim, me comprazia com a sua felicidade e irmandade perante os seus.

No breve contato telefônico, de repente, vi na sua face um descontentamento tamanho, com seus lábios cerrando e num despenco convexo, seus olhos umedeceram opacificando o brilho do olhar de antes, desiludido e surpreendido por alguma negatória à expectativa, seu semblante se fez pesado. 

Bradando ofensas grosseiras, explodiu em ira pela imposição paterna da presença da atual companheira, antiga amante que retirara o genitor de casa. Agora, a predileção dos afins pela algoz, o tornara forasteiro dentro do outro lado familiar. A cada ato de abandono emocional do pai, após nossa separação e, pela notória preferência explícita aos demais os distanciavam mais ainda, tornando meu filho rejeitado. 

A presença ausente paterna, como apenas referência simbólica, roubou-o a leveza. Sua maturidade abrochou instantaneamente diante da impotência de lidar com a dor da perda, seu luto contínuo trouxera as mazelas do vazio existencial deixando-o rijo e amargo. 

Assim, meu rebento estava condenado a vagar na escuridão do deserto da alma. Esquecido e preterido, me sentia culpada pela má escolha genética. Sabia que sua presença atormentava o pai com a lembrança personificada de nossa união de outrora. Bem como, gerava perigo a nova escolha de vida.