... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

sábado, 17 de maio de 2014

O ódio como perda do objeto do desejo...

"... a mesma imagem que representa seu ideal é também o objeto de seu ódio” Lacan



Era tão contraditório a forma em que ele me tratava, ao telefone era gentil e sempre atendia minhas ligações com uma voz doce. Assim, mesmo após todo o sofrimento que amarguei com nossa separação, mantive ainda uma lembrança afetiva. 

Já não havia mais rancores, apenas amor pelos laços familiares junto aos nossos filhos e pela generosidade de ajuda mútua. Mas, perante sua agressividade diante da minha presença, às vésperas dos dias das mães pude me deparar com o ódio dele. 

Não havia motivos para tamanho descontrole perante uma opinião lançada, cuja falta de argumentos o fez me agredir com uma grosseria desmedida. Mantive-me absorta, sem qualquer reação à altura e constatei o quanto o ameaçava. Talvez, atrás do ódio permanecia uma insatisfação pelo rompimento mal resolvido que me causara tanta dor ou, talvez pela culpa que o assombrara. 

No fundo tive pena dele, do seu envelhecimento precoce aparente, da infelicidade radiografada no fundo dos seus olhos e do tempo perdido num novo romance insosso. Pois, a nossa afinidade e alegria conjunta nunca mais voltaria, eis que por sua exclusiva insegurança recusou-se a manter nossa união. Vindo a perder o nosso futuro conjunto, reservado aos deleites familiares com nossos filhos crescidos e netos enchendo a casa. Porém, a escolha afobada de se aventurar numa nova união, desunida pela ausência de laços conjuntos, agora o castigava.

A data especial da maternidade, certamente o frusta por sua insensatez em viver mais solitário do que nunca. Quem sabe se seu ódio seja a representação da troca mal feita ? 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Nas profundezas da dor...



"Diante do choque, veio a dor que se profundou dia-a-dia, corroendo meus sentimentos até se transformar num sofrimento insuportável. Assim, deu-se a depressão reativa. Já sem forças para reagir, passei a não me pentear mais, a não escovar os dentes, a não me lavar mais, a não me alimentar mais e dormia pesadamente depois do pranto; trocava os dias pelas noites para não ter que falar com ninguém. Aquela tortura diária, me fazia penetrar no desejo de sucumbir. Até que, depois de meses vegetando naquela solidão, fui parar num consultório de psiquiatria." C. Garcy



Os Outonos roubados...


Um dia levaram o meu Outono.
Foram muitos e muitos outonos felizes.
Agora, meus outonos são invernos.

Em meu Abril brotam feridas.
Marcadas pelo punhal frio.
Abertas a cada Outono.

Talvez, na Primavera me cicatrize.
Para renascer no Verão.
E, um dia, retomo meu Outono.


Era no Outono que eu resplandecia com todos a alegria de viver mais um outono. Despertada pelos telefonemas que não cessavam em tocar no meu Abril outonal, já haviam flores e caixa de bombons me esperando no café-da-manhã dados por Papai mesmo quando ausente pelo trabalho. Mamãe sempre na cozinha preparando meu bolo e doces para o festejo do meu Outono. Eram dias felizes, em que não precisava ir à escola e saia de mãos dadas pelas lojas para comprar meu vestido novo de festa com Mamãe. Naqueles dias ela era só minha e não precisava disputar sua atenção com meus irmãos. Mais tarde, chegavam meus Avós com presentes e a casa ia se enchendo de primos e amigos. 

Meus outonos sempre felizes transcorrem anos e anos pela vida que me permitia ter um dia especial. Na juventude os dias duplicavam, um para família e outro para os amigos. Veio o casamento e a nova organização familiar, mas meus outonos resistiram, mesmo a contra-gosto do meu parceiro que intencionava em não me dividir com os demais. Porém, eu aproveitava até o último minuto do meu dia. 

Festejar, comemorar meu outono de abril era importante, eis que compartilhava a minha alegria de viver e agradecer todas as pessoas que me prestigiavam. E, por amar muito meu parceiro passei a festejar com comemoração de um dia especial, também o seu inverno do de agosto com todos os nossos amigos. 


Por derradeiro, ele roubou meu outono entristecendo meu abril, deixando apenas o frio do inverno...