... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Intrusão...


Confissões de culpa...



"O ego é dotado de um poder, de uma força criativa, conquista tardia da humanidade, a que chamamos vontade." Carl Jung




Não conter a vontade e transformar o desejo em ato sem previsão das consequências, pode gerar culpa. E, foi assim, que Julia cedeu aos encantos de Antônio, depois das tantas investidas e mensagens carinhosas de amor. 

Na sua tranquilidade da solidão exilada, de repente chega a mensagem: "Lindona, qual boa de hoje ?". Por mais que se desse silente, ele insistiu e Julia respondeu. Afinal, um drink regado de bom papo não era de todo mau. Até porque, Antônio era extremamente culto, inteligente, bonito, meigo e educado, todos os predicados de um homem dos sonhos, se não fosse pelo simples fato de ser compromissado. 

Pouco tempo antes, Julia teve um brevíssimo romance com Antonio, sem as vias de fato, de forma platônica, em que ambos estavam saindo de uma separação com seus respectivos pares. Julia apenas, serviu de conselheira e influenciou-o a retornar seu casamento, na intenção inconsciente que amenizar a dor do seu próprio fracasso conjugal. 

No entanto, a toda crise Antônio como um dependente emocional procurava Julia, se interessava em saber da sua vida e de uma forma ausente estava sempre se fazendo presente. Então, ela respondeu: "Você venceu. Me dê meia-hora que chego.

O tempo estava ameno, um vestido leve e suave, com acessórios artesanais, cabelos úmidos, um toque de lavanda, bastava para o encontro despretensioso nas redondezas do bairro. Mas, a noite hedonista regada aos destilados e marcada por assuntos existenciais foram suficientes para que Julia se encantasse novamente por Antônio, cujo discurso da conquista transbordava pelos olhos ternos e brilhantes daquele homem sensível e emocionado. 

A cada argumentação de Julia era correspondida com um olhar profundo e estático, como se ele estivesse embriagado ao som mântrico da sua voz mole. Em que não havia economias aos elogios despendidos, seja pela voz que julgava sensual, pela oferta de assuntos ou pela beleza endurecida da mulher que estava disposto a amar. Embora, houvesse divergências em pontos de vistas fundamentados, ele em plena sabedoria passiva lançava sua opinião na mais tênue elegância. 

No entanto, a admiração não bastava para que Antônio suportasse o desejo incontrolável pela mulher almejada.  De mansinho ele deslizava seus dedos suavemente na pele fresca do braço de Julia, até dedilhar os longos cabelos, os beijos miúdos pelos cantos da boca, os segredos ao pé do ouvido com os arrepios na nuca foram o suficiente para banir o super-ego de Julia e derreter todo o gelo de sua alma amargurada.

Já, não havia como controlar mais a vontade, então Julia o puxou contra o peito num arrobo inconsequente para um beijo molhado, entrelaçando as línguas cansadas dos discursos ao convite clandestino há tempos adiado. Ao caminho do refúgio, suas mãos dadas suavam de ansiedade, juntamente com as risadas intercaladas das músicas cantaroladas num ritmo desafinado na cumplicidade de ambos. 

Num ritual lascivo, Antônio vagarosamente desnudava a anatomia da amada, intercalando beijos módicos ao som de sussurros quase inaudíveis até tê-la completamente entregue. Na afeição simultânea dos olhos nos olhos, lágrimas eram sorvidas mutualmente até o romper das culpas com o descanso das almas paralisadas na fantasia novamente adiada.

E, assim um breve bilhete de Julia era pousado ao lado ausente da cama motivado pelo remorso: "Não podemos alcançar o nirvana, sem resolver as pendencias latentes que angustiam nossos espíritos. Estamos no lugar errado, na hora errada e no momento errado, contradizendo Chaplin... Enfim, não podemos regojizar a transgressão com a culpa, se não formos absolvidos. Obrigada, pela noite. Adeus".

domingo, 2 de dezembro de 2012

Filhos descartáveis...


"Foi concebido um varão, converta-se esse dia em trevas, que deus lá do alto não lhe dê atenção nem a luz sobre ele resplandeça, que dele se apoderem as trevas e obscuridade, que as nuvens o envolvam e os eclipses o apavorem." 
José Saramago in Caim



Ao adentrar na sala pela manhã trazendo as xícaras para o café da cozinha, pude ouvir um despertar esfuziante. - Bom dia, Mãezinha ! 

Animado para um encontro familiar, pude sentir o quanto ele ainda, clamava pela convivência com os irmãos. Na qual, era evidente a minha ausência e, mesmo assim, me comprazia com a sua felicidade e irmandade perante os seus.

No breve contato telefônico, de repente, vi na sua face um descontentamento tamanho, com seus lábios cerrando e num despenco convexo, seus olhos umedeceram opacificando o brilho do olhar de antes, desiludido e surpreendido por alguma negatória à expectativa, seu semblante se fez pesado. 

Bradando ofensas grosseiras, explodiu em ira pela imposição paterna da presença da atual companheira, antiga amante que retirara o genitor de casa. Agora, a predileção dos afins pela algoz, o tornara forasteiro dentro do outro lado familiar. A cada ato de abandono emocional do pai, após nossa separação e, pela notória preferência explícita aos demais os distanciavam mais ainda, tornando meu filho rejeitado. 

A presença ausente paterna, como apenas referência simbólica, roubou-o a leveza. Sua maturidade abrochou instantaneamente diante da impotência de lidar com a dor da perda, seu luto contínuo trouxera as mazelas do vazio existencial deixando-o rijo e amargo. 

Assim, meu rebento estava condenado a vagar na escuridão do deserto da alma. Esquecido e preterido, me sentia culpada pela má escolha genética. Sabia que sua presença atormentava o pai com a lembrança personificada de nossa união de outrora. Bem como, gerava perigo a nova escolha de vida.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A dor do abandono...

"Já não é mágico o mundo. Você foi deixado."    Jorge Luis Borges


Além da dor do abandono, mulheres se preocupam com o sofrimento dos filhos pela quebra familiar na separação. É como se não pudessem ter o direito de sentir essa dor porque há uma fragilidade muito maior na situação dos filhos. Assim, mesmo vítimas da falência conjugal com a dor da perda do outro desejado, não podem sentir tal dor sem a culpa de ter outros mais sensíveis à separação. O desamparo emocional do fracasso em manter o relacionamento traz ainda, uma carga de manter-se inteira para segurar a estrutura psico-emocional dos filhos.


Sentir desamparada emocionalmente e, ainda ter que representar uma força da qual não tem no atual momento do abandono, a fim de segurar toda dor dos filhos a faz sentir com baixa da auto-estima e culpada. 

Muitas vezes, a saída do pai do lar é traumática por conta da troca de afeto da mãe por outra mulher e, mais ainda quando o pai estabelece um distanciamento dos filhos para evitar que atrapalhe seu novo relacionamento. Até mesmo, porque seu envolvimento apaixonado não dá espaço para o convívio dos filhos. Esse egoísmo natural dos homens por conta do encantamento da nova paixão, não lhes permite conciliar as responsabilidades afetivas com família abandonada. Pois, não somente a mulher sente-se desamparada pela perda e isso se estende aos filhos, sobrecarregando a mulher fragilizada pela separação numa forma subterrânea de vingança. Como se o recado fosse, "você não foi capaz de me segurar no casamento, me obrigando ir procurar outra. Agora, aguenta. Fique com os filhos já que não tenho mais amor por você. Eles vão preencher o vazio deixado pela sua incompetência em me manter na família. Então, tampouco terei a obrigação de estar com seus filhos interferindo em minha nova vida amorosa"Contudo, parece que os filhos não têm mais lugar na vida daquele pai que suas presenças o remetem a lembranças daquele relacionamento odiado e frustrado. Transferindo assim, todo o desamor pela mulher para os filhos também que representam o casamento.

Para o homem que abandona a mulher e os filhos, não há culpa, eis que a culpa é lançada à mulher numa espécie de incapacidade emocional de permanecer o afeto. O sofrimento também, vivido pelos filhos diante da perda dos laços paterno é uma crueldade. Por isso, os pais que se separam não devem obrigá-los a tomar partido. Pois, o importante é ambos conversarem com os filhos sobre a separação, assumindo seus erros e jamais, mentindo, porque os filhos não podem suportar toda a carga da separação dos pais, se houver segredos não revelados.

O Outro sem rosto...

"O tempo passou e a mágoa, também. Agora, não vejo mais seu rosto. Não há nada que me faça enxergar a sua face. A imagem de antes não existe mais. Toda imagem daquele belo rosto sumiu. E, está representada como uma obra de Magritte...


Desconstruí sua imagem mesmo depois de muito tempo juntos dividindo uma vida, por não suportar a angústia de tanta dor, diante da impotência de lidar com todo o sofrimento causado. Assim, como um ato de defesa, apaguei a imagem que um dia me encantou. "

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O limite entre a insegurança e a auto-estima...

Carlos era um sujeito elegante, bonito, alto, com inteligência e humor destacados, sedutor e muito ousado, o que o tornava bastante desejável entre mulheres e homens. Tanto que em reuniões sociais, logo tornava-se o centro das atenções. Debatia qualquer assunto, com uma propriedade peculiar que o destacava dos demais. 

Entretanto, para esconder sua insegurança era arrogante e pernóstico para disfarçar seu problema maníaco com a auto-estima, o que ocasionava uma desconfiança exagerada e um ciúme patológico capaz de desequilibrar qualquer relacionamento genuíno. 

Desta forma, para se defender da angústia paranóica da rejeição, seduzia e colecionava relacionamentos sexuais clandestinos para satisfazer sua compulsão. Enquanto, mantinha um casamento  com uma mulher jovem, bonita, atraente e apaixonada, cujo objetivo era na verdade acrescentar a posse diante de um falso triunfo exibicionista para os outros. 

Com a crise da meia idade, a mania se refletiu em sintomas de irritação, desconfiança, delírios, auto-depreciação, se intensificando à necessidade do desejo reprimido de se sentir amado e correspondido. Assim, veio a elação, através de Mônica que satisfazia àquele desejo reprimido e não gerava perigo, ainda. 



"... o ciúmes se enquadram no âmbito de uma relação triangular. Que essa problemática há três elementos em jogo: ele, sua amada e "o outro", e que o medo que o ciumento tem é que a pessoa que ele ama dê a esse "outro" (que costuma ir mudando com o tempo) o que só deveria dar a ele. E por que vai dá-lo a outro ? Aí se impõe, inconscientemente, o seguinte raciocínio: se dá a outro, é porque o ama mais que a ele. E o ama mais porque, com certeza, o outro é melhor e mais valioso." (Gabriel Rolón in Histórias de Divã)

domingo, 11 de novembro de 2012

Transferência...



Em pleno tratamento de uma depressão que já vão há mais de dois anos, sempre existe um motivo para me impedir de ir ao consultório da Dra. Iná. Mesmo assim, nunca faltei sequer uma sessão, aos trancos e barrancos me arrasto literalmente todas as terças-feiras sem me atrasar. Mas, desta vez estava com uma virose que me debilitava o corpo, sem contar no contágio que poderia causar transtornos à saúde da minha terapeuta, como de seu filho acometido de um tratamento por quimioterapia. 

Adiei minha hora de consulta sobre os protestos da Dra. Iná e, não tive argumentos suficientes para retornar somente na semana seguinte. Então, a sessão estava marcada para o dia seguinte. 

Pela primeira vez, nesses dois anos de tratamento me atrasei muito, uns quarenta minutos, me restando a sobra de dez minutos suficientes para pegar a minha receita dos anti-depressivos. Obviamente, tudo dentro do campo do inconsciente. Mas, do que eu estaria fugindo desta vez que fosse tão combativo a ponto de me tornar irresponsável quanto ao meu tratamento ?

Assim, que cheguei logo ouvi a devida intervenção.

- Hoje você se atrasou e teremos apenas alguns minutos, mas vou estender a sessão. Sei que você necessita.

Ao sentar no divã desabei em prantos e soluços, envergonhada pela minha dor diante do imenso sofrimento vivido por àquela mulher, mãe, e sendo privada do convívio e cuidados do filho extremamente doente. A culpa me rasgava o peito, como eu poderia falar da minha dor tendo alguém tão mais sofrida na minha frente ? Eu não podia ser tão egoísta desta forma e consegui respirar fundo e dizer:

- Dra. me perdoe, mas acho que o fato de estar muito gripada me fez sentir culpada em transmiti-la à você por causa da situação do Tarik. 

- Não se preocupe, muitos pacientes estão gripados e eu também. Mas, me conte. O que houve ?

As lágrimas pulavam dos meus olhos sem que eu pudesse contê-las. Na verdade eu queria era retribuir todo carinho e dedicação recebidos, abraçando-a e deixando-a chorar toda a sua dor nos meus ombros. Me senti no lugar dela, com aquela dor toda sendo obrigada a trabalhar e manter a postura de cuidadora de sentimentos destroçados a procura de colo. 

- Não sei o que está acontecendo. Entrei na transferência e estou sofrendo muito pela sua dor, não sei como você está aguentando tudo isso ?

- Ora ! Você é mãe e está se colocando na minha situação. Quantas vezes aqui, expôs sua preocupação com o João ? É normal, que se sinta afetada com que estou passando. 

- Admiro a sua coragem e força para enfrentar um caos desses, sinceramente eu não suportaria tamanha dor. 

- Kátia, eu tenho aprendido muito com você. Até agora, só vejo você ter uma desilusão atrás da outra, quantas vezes trabalhamos o seu luto aqui ? E, olha que não foram poucos. Também, as várias porradas que a vida tem lhe dado nesse curto período de tempo ?

Assenti com a cabeça, numa maneira para deixá-la falar na tentativa de colocar para fora todo o sufoco vivido. E, deu certo. Assim, ela falou do quanto estava cansada e como sofria em ver a luta diária do filho em busca da vida, mas que o câncer era a "tristeza das células"...

Para nossa sorte, a paciente seguinte se atrasou e podemos conversar durante uma hora pontuando na questão emocional a doença do Tarik. Aquilo me aliviou e acalmou a minha alma tão amargurada. Olhei para ela e disse:

- Eu te amo.

- Eu também te amo. 

Vi nos seus olhos um brilho e pude entender o que é transferência.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A devastação feminina....

Os vícios de um homem podem destruir a mulher que ele ama e, submetê-la a devastação por conta dessa parceria.


Fonte: DRAINED -- Directed by Nick Peterson
          https://www.youtube.com

domingo, 28 de outubro de 2012


“O que vem em suplência a relação sexual, precisamente 
é o Amor.“ 
Lacan 


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Suavidade e Delicadeza...


"O que me basta é o olho no olho, o toque suave no meu rosto, os dedos passando pelos meus cabelos, o silêncio da admiração, as mãos dadas, o aconchego da pele com pele, os beijos lentos sem pressa e por fim o adormecer abraçada". Claudine Garcy

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

É no sexo que se impõe a disputa de poder...

"Você é minha mulher. Você é meu mestre. O que constitui precisamente o valor fundador dessas falas, é que o que é visado na mensagem, como também o que é manifesto no fingimento, é que o outro está aí enquanto Outro absoluto". Lacan


Assim como, afirmou Lacan em que o "ato sexual não existe", amar está longe do sexo. Por mais que o desejo do outro seja primordial para consistir a relação amorosa, o sexo em si é abstrato e cria entre os parceiros eventuais fingimentos e afastamento. Amar significa não ter obrigação em transar e muito menos, o ato de penetração no coito consiste em plenitude. 

Não se trata aqui de amor romântico, eis que este já deixou há muito de existir em nossa sociedade contemporânea. Assim como, a mulher atingiu a liberdade conquistada a duras penas, resta agora conquistar a felicidade afetiva, cujo objetivo tem sido denotado pelas inúmeras tentativas de relacionamentos. Conjugar o amor com o desejo sexual é um dos grandes desafios da contemporaneidade. 

Na conquista, a iniciação do relacionamento pela paixão, o sexo é uma das armas subjetivas da mulher para prender o parceiro até conseguir tê-lo entregue. Ela não hesitará em se entregar as fantasias e qualquer forma de dar prazer ao Outro desejado. Porém, quando estiver plena e amando-o verdadeiramente, não terá o sexo como aliado, bastando apenas o afeto e a cumplicidade. É como se o sexo fosse uma tática para prendê-lo. Portanto, enquanto houver dúvida em relação aos sentimentos do ser desejante e sentir-se ameaçada por outra usará estrategicamente o sexo para conter seu amado. 

Sua completude está no amor e, então, não convém mais sexualizar a relação. Ela quer companheirismo, conversa, compreensão e unidade. Se for contemplada ainda com a maternidade estará unificada ao parceiro, sem qualquer disputa de poder. 

Certa vez, ouvi uma declaração bastante interessante e de ampla profundidade a ser refletida. Em que uma mulher de mais de 40 anos expôs sua frustração em conciliar o ato sexual ao amor vivido com o marido. Disse ela: "- O sexo me causa um distanciamento e na realidade, sinto-o como uma das necessidades primitivas, como comer, beber e excretar. Gosto do olho no olho, dos afagos em meus cabelos, do abraço, sentir peito no peito, mãos dadas e, quando há o ato sexual em si não me causa tanta satisfação quanto ao ato de afeto. É como se o orgasmo fosse um término de todo amor...".

Esta é uma maneira de dizer, não preciso transar com você para amá-lo. E, certos homens não entendem isso e apenas, se satisfazem pelo ato sexual em si. Desprezam o afeto e apenas, necessitam despejar sua ânsia pela ejaculação. Parece que são adeptos do sexo como uma forma de demarcar território e praticam sexo como se fossem atores de uma cultura de filmes pornográficos. Apenas, satisfazem seu narcisismo pelo coito com penetrações intensas e de preferência na posição contrária, sem o tal olho no olho conforme citação mencionada anteriormente. E nessa disputa de poder, tendo em vista que o sexo é uma das mais primitivas formas de poder e de subjugar a mulher, o homem passa a ser rejeitado pela parceira que não consegue se sentir plena e tão somente, como um receptáculo de esperma semelhante ao descarte.

Certa vez, uma outra mulher bastante sofrida pela separação de um casamento estável, na busca de alguém para preencher o vazio, se relacionou com um homem muito sedutor e extremamente interessante, donde nos momentos de intimidade inexistia o ato de penetração em si. No entanto, a troca de afeto era tão intenso que a fazia sentir plena e toda delicadeza transbordava seu vazio. Então, ao ouvi-lo se declarar que o amor sentido por ela era tão sublime que não o possibilitava transar, a fez chorar emocionada por perceber o quanto ainda amava o seu ex-marido porque sentia o mesmo durante todos os anos vividos. O que a preenchia eram as trocas de olhares, os afagos, as gentilezas, a fala baixinha e o afeto. Apesar, de nunca tê-lo em absoluto.

Assim, no sexo se impõe a disputa de poder e o amor não comporta tal disputa; apenas sentimento.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Disfarçamos a dor...


Mulher Casada: Dois pesos e duas medidas...


A cada dia os relacionamentos se evaporam e raros são casamentos duradouros. Na hipocrisia da sociedade de consumo, amores são descartáveis e mulheres bem sucedidas profissionalmente se deparam com uma dura escolha, solidão ou sucesso ? Dedicação à família ou promoção profissional ? Muitas, se optam pelo casamento estarão fadadas a uma carga de compromissos e responsabilidades sem qualquer garantia de êxito. Se conseguirem suportar as exigências afetivas familiar, assim que os filhos estiverem criados farão parte do percentual estatístico, sendo facilmente descartadas por outras mais novas. 

Há as que não suportarão o tédio da dedicação exclusiva ao casamento, em que se sentem colonizadas e acabam criando rancores pela insatisfação do compromisso procurando paixões clandestinas, como uma maneira vingativa de todo descontentamento. Perdurando numa falsa relação com escapes que as permitirão continuar casadas. Ou então, as que não se importarão em trocar de marido, mantendo sucessivas relações.

No tocante, a questão da mulher e do casamento, a obra revolucionária do século XX, O Segundo Sexo de Simone de Beavoir, é senão, a mais atual mesmo nos dias de hoje. Em que a autora exprime toda desigualdade mantida em relação à mulher livre e a felicidade em seus relacionamentos.

Todavia, por mais que a mulher tenha atingido a liberdade de escolha, sua independência financeira, muitas ainda sonham com o casamento. Não é à toa que a indústria de cerimonial cresce a cada dia. Entretanto, muitos relacionamentos por mais que aparentem a perfeição, e como afirma Simone de Beauvoir "dão a impressão de uma perfeita igualdade. Mas, enquanto o homem conserva a responsabilidade econômica do casal isso não passa de ilusão. Ele é quem fixa o domicílio conjugal segundo as exigências de seu trabalho: ela acompanha-o". Portanto, está aí a desproporção em relação aos planos individuais da mulher. Apesar das conquistas, dos dias atuais, perdura a desigualdade e a mulher vai suportando as frustrações em favor do amor conjugal e da família. Mas, esse sacrifício tem um preço emocional gerando insatisfações e distanciamentos. Assim, depois de substituir todo seu investimento profissional em função da carreira do marido, a mulher torna-se inferiorizada e consequentemente subordinada. Transforma-se num objeto de uso para o marido que a trata com cobranças, principalmente na questão sexual. Não são raras as queixas da ausência de uma vida sexualmente plena, em que a mulher frustrada em sua concepção de união conjugal sublima sua condição de desejo sexual e o direciona para o consumo, a religião ou ideologias que substituem a sua condição de disponibilidade ao bel prazer do marido.

Certa vez, ouvi um curioso desabafo de uma mulher extremamente inteligente, independente financeiramente, quando da sua separação conjugal: "Agora, me sinto livre, sei que não sou frígida, tenho libido e sem a obrigação de me prostituir a cada investida do meu marido que só de imaginar que ele queria transar comigo eu gelava". Outras, tinham a mesma opinião sobre a questão sexual, "Amo meu ex-marido ainda, mas já não aguentava a cobrança sexual na época de casada. Hoje tenho um caso com ele e tenho desejo, mas não estou obrigada, acho que por isso minha vida sexual se normalizou"... "Eu não aguentava a cara de mal-humor no café da manhã e as grosserias porque não tinha vontade de transar com ele"... "Eu transava obrigada e muitas vezes me dava nojo dele"... Assim, são as inúmeras reclamações das mulheres casadas em relação a se sentirem objeto ao dispor dos maridos e frustradas no campo afetivo.

Entretanto, a separação e o divórcio não são vistos como solução pelas mesmas, mais precisamente como se fosse uma sanção penal atestando sua incompetência em manter o casamento. Outra menção à respeito quem vem de encontro a situação fática que ainda persiste é que "O divórcio para a mulher é apenas uma possibilidade abstrata, em não tendo ela meios de ganhar a própria vida: ... a sorte da mulher, da mãe abandonada com uma mesada irrisória, é um escândalo. Mas a desigualdade profunda vem do fato de que o homem se realiza concretamente no trabalho ou na ação, ao passo que, para a esposa, enquanto esposa, a liberdade tem apenas um aspecto negativo... Há jovens mulheres que já tentam conquistar essa liberdade positiva; mas raras são as que perseveram durante muito tempo em seus estudos ou sua profissão; o mais das vezes sabem que o interesse de seu trabalho será sacrificado à carreira do marido; só trarão para o lar um salário suplementar; só se empenham timidamente numa empresa que não as arranque à servidão conjugal"

Da mesma forma, que é demasiadamente estressante a posição da mulher profissional casada que acumula dupla, senão tripla jornada de trabalho, aonde a maternidade será um peso gerando culpas e desconfortos à união matrimonial pela desigualdade de funções perante as responsabilidades. Quiçá quando a mulher é divorciada e exerce a função solitária em manter a família com a irrisória mesada recebida pela guarda da prole. Como atesta novamente, Simone de Beauvoir, "Há mulheres que encontram em sua profissão uma independência verdadeira; mas são numerosas aquelas para quem o trabalho "fora de casa" não representa no quadro do casamento senão uma fadiga a mais. Aliás, amiúde, o nascimento de um filho obriga-as a confinarem-se em seu papel de matrona; é atualmente muito difícil conciliar trabalho com maternidade".

Por fim, essa desunião de gêneros, devido a desigualdade imposta pelo modelo machista do patriarcado, marca a disputa de demarcação no território afetivo, seja pelo fracasso das relações voláteis ou pela insuportabilidade da posição inferiorizada da mulher. A qual ganhou liberdade pela independência financeira, mas ainda almeja a felicidade na expectativa do casamento.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

"A dor da gente não sai no jornal..."



"Tentou contra a existência
Num humilde barracão.
Joana de tal, por causa de um tal joão.

Depois de medicada,
Retirou-se pro seu lar.
Aí a notícia carece de exatidão,
O lar não mais existe
Ninguém volta ao que acabou
Joana é mais uma mulata triste que errou.

Errou na dose
Errou no amor
Joana errou de joão
Ninguém notou
Ninguém morou na dor que era o seu mal
A dor da gente não sai no jornal."

(Chico Buarque - Notícia de Jornal

domingo, 30 de setembro de 2012

Morte, numa visão acerca da libertação...

"Quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida" Augusto Cury 


"De repente a gente desiste de tudo... E aí, a vida perde o sentido. Deve ser por isso que muitas pessoas decidem morrer e para fugir do sofrimento dão um basta e acabam cometendo suicídio. Aliás, não gosto do termo suicídio, prefiro morte voluntária. Ou melhor, eutanásia. Pois, a morte seria a plena liberdade de toda dor e sofrimento... O êxtase final" 

Com essas palavras Camila definiu seu cansaço diante do conflito existencial,  em que a fez perder gosto pela vida. E, as noites insones a fazia pensar e refletir sem parar. 

"Não havia posição que aliviasse aquela dor de coluna que me entrevava na cama. Era como se meu corpo não suportasse mais um peso árduo demais. Aos poucos minhas pernas foram se fragilizando e me deixando desequilibrada, causando tropeços e tombos. Eu estou vivendo num corpo idoso demais para mim, cujo preço dessa dor havia me transformado em uma anciã. Sem perspectivas, sem esperanças e sem planos futuros. A cada dia eu atrofio e quando tenho minhas obrigações fora de casa me arrasto como uma réptil carregando o mundo nas costas. Meu rosto antes jovial, agora vive expressando a dor vincando minha testa. Toda a minha alegria esfuziante que refletia no brilho espelhado em meus olhos foi se tornando turvo, até não expressar mais nada. Apenas um olhar opaco sem horizonte ao alcançar. Estou muito cansada." 

Mas, o quê esta dor tão intensa e aguda representava ?

Considerando que a dor física pode ser uma reação afetiva de perda, com a intensidade ligada a uma perda imprevista, cujo equilíbrio se esvai. Talvez, seja isso a dor na coluna, o desequilíbrio motivado pelo sofrimento de uma perda. Pois, a dor específica numa determinada parte do corpo demonstra uma desordem psíquica, dado a situação de limite em que a dor psíquica emerge a dor corporal. 

Desta forma, a manifestação psicossomática vem da agressão externa em que o sofrimento ligado a psiquê não dá conta e transborda para a dor física. Sendo essas dores intrínsecamente ligadas. Assim, a dor corporal é um sintoma de uma agressão psíquica, seja por luto, por abandono ou por uma humilhação.

Exatamente o que Camila vinha vivenciando... Perdas sucessivas e rupturas de difíceis aceitação, com a agravante de estar totalmente desamparada e se sentindo humilhada pelo fracasso na vida pessoal a ponto de consequentemente abalar todos os alicerces construídos.

Os argumentos expressados para a possível "libertação", ou seja, a "eutanásia" proferida por ela não deixava de ter razão. A questão agora, era desistir logo ou tentar mais outra vez ? 

Voltando ao ponto da dor física, na linguagem corporal, "A coluna vertebral é o suporte do corpo. E o pilar da estrutura óssea e muscular. Ela é responsável pelos movimentos dos braços, pernas e dos órgãos. Pela análise psicológica, a coluna simboliza nossas raízes genealógicas e tudo que suportamos dos dilemas da vida. É como um grande pilar de um edifício, onde a parte invisível é a que sustenta a estrutura toda... Desvio da coluna significa que a pessoa tem medo de tomar decisões importantes porque teme perder ou magoar alguém. Ela está normalmente lotada de responsabilidades, sendo que a maioria dessas responsabilidades não deveria ser sua. Costuma assumir tarefas dos outros e, com isso, suas costas ficam sobrecarregadas... essa pessoa tem sempre dúvidas e não confia plenamente no futuro". Talvez, seja por isso que Camila, ainda hesitava em dar fim a vida. Haviam outros envolvidos e ela estava preocupada em não causar sofrimento aos demais. Enquanto, não suportava mais o peso do fracasso e somatizava a dor psíquica martirizando seu corpo. Estava estagnada.

Todavia, a dor corporal da coluna poderia, ainda representar a inflexibilidade de lidar com os problemas. Entretanto, especificamente, a dor intensa de Camila se dava na parte torácica, mais precisamente nas vértebras. E, assim leva a crer que: "As vértebras torácicas. Simbolizam as contrariedades. Problemas nestas vértebras ocorrem em pessoas que vivem suportando a vida da maneira que não gostam, que têm medo do fracasso, que culpam outras pessoas pelas suas tristezas, sentem-se amarguradas, recusam o amor por idealizá-lo demais, vivem conflitos internos por se sentirem rebaixadas pelos outros, têm medo de assumir sozinhas suas responsabilidades e fracassos, 'entopem-se' de motivos para não desfrutarem da vida e experienciam tudo que é relacionado com certas punições internas e sentimentos de culpa." (Cristina Cairo in Linguagem Do Corpo - Aprenda a Ouvi-lo Para Uma Vida Saudável). De certo modo, viver a vida dos outros ao invés de ter a sua própria vontade; abrir mão de seus planos e projetos em função do casamento; ocultar seus desejos e temer desapontar a expectativa do outro, por medo de magoar a outrem a fez cair nesse vazio. 

A dualidade de se libertar e seguir seus próprios desejos, esbarra com os grilhões de não poder segui-los. Para tanto, Camila, como Mulher Absurda, teria que quebrar as correntes e desatar os nós, por isso sua dor na coluna. Pois, carregava o peso do mundo nas costas até o topo da montanha que depois rolava ladeira abaixo.   


domingo, 16 de setembro de 2012

" ALMA DO POETA " Vinicius.C: Perdão

" ALMA DO POETA " Vinicius.C: Perdão: É crime olhar para o passado?   Lembrar sem nos tomar, ou tornar. Somos estaleiros incapazes de entender mais além. ...


Liberdade...

"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós." Jean-Paul Sartre


Na condição de mulher separada não me furto e muito menos me constranjo ao sentar solitária na mesa de um bar. Escolho um mais tranquilo, sem pessoas conhecidas e levo comigo um bom livro que será a minha companhia agradável da noite. O garçom gentilmente me traz um destilado e graciosamente infringe a norma da dose e deixa jorrar o famoso "choro". Cigarros, álcool e água gasosa na tentativa de dissolver a bomba dupla. Mas, ambas tem um único sentido; me relaxar do turbilhão de responsabilidades e problemas que me deixam ansiosa. 

Começo minha leitura, mas alguns fatos me chamam a atenção e me dispersam da concentração da narrativa do livro. Uma menininha de aproximadamente 4 anos de idade perambula em volta da mesa que estão um casal e duas mulheres, meu moralismo me alerta para o adiantado da hora para a menina em um bar, sem a menor atenção e entediada. Troco um olhar com a criança e basta para ela se aproximar languidamente num misto de timidez e tentativa de trocar alguma receptividade. Fico com pena e ofereço uma caneta e destaco uma folha do meu pequeno bloco de anotações. Seus olhos brilham pelo singelo gesto e já é o bastante para que ela se distraia num ambiente avesso à sua idade. O homem da mesa, naturalmente o pai, se comove com meu simples ato e lança a fatídica frase: "Agradeça à moça Isabela, diga obrigada". Ai, como deve ser chato para a criança a ordem de etiqueta social, afinal ela tampouco queria estar ali e apenas se sentiu acolhida pela caneta. Ora ! Que criança não se encanta com um pequeno instrumento lúdico que a faça rabiscar ?

Continuo minha leitura degustando o malte batizado com a água que imagino diluir minha solidão propositada. Evito olhar para a menina, a fim de impedir a distração do conteúdo que almejo absorver. A noite está agradável e de uma temperatura amena, como o livro me foi emprestado pelo meu ex-marido, acabo tendo vontade de trocar idéias com ele. Mas, sou impedida por imaginar que ele agora está ao leito com a outra. Rapidamente, me vem a mente que ele nunca se interessou pelos livros que gosto e, tampouco por política ou documentários do tipo. A nostalgia me toma a mente e sinto saudades de alguém que atualmente não conheço os gostos, os interesses e que seria tão providencial ao diálogo que não lhe interessava na época em que vivemos juntos. Meus olhos umedecem pela falta nesta altura da vida, cujo tempo já vai para mais de 40 anos e, dou um leve sorriso a mim mesma, ao lembrar que em poucos instantes que fui apontada como "a moça".  

De repente, à minha frente um casal apresenta um atrito que me desconcentra a leitura. Uma mulher de aproximadamente 30 anos, muito bonita, esbelta, com longos cabelos negros e trajando uma blusa do fluminense está chorando e o parceiro, também beirando a mesma idade e de camiseta do mesmo time, levemente obeso, sem qualquer atrativo, cara fechada, não responde uma só palavra da mulher. Ela falando baixo e entredentes, enxugando as lágrimas que insistem em revelar seu descontentamento e ele impávido. Surge alguns gestos bruscos em que ele tenta se desvencilhar de alguma solicitação, aparentemente parece ser as chaves ou, talvez, o telefone celular, não sei ao certo. Em súplicas ela se humilha e o homem torna-se mais irascível ainda, pouco se importando em expô-la aos outros da sua grosseria. Subitamente me dá uma raiva do protótipo arrogante e tenho vontade de falar alto para essa mulher que não precisa se rebaixar e interferir no desacordo da Bela e a Fera. Mas, quantas mulheres já não passaram por isso ? E, quantas vezes estive na mesma situação que me paralisava diante das grosserias do meu ex-marido. E, assim ele sai na frente e ela como uma colonizada pelo seu dono atrás.

Na outra mesa repleta de meia-dúzia de casais, os homens aparentando cinquentenários dão risadas comentando maldosamente o episódio e evidenciam expressões sexistas. Devem ser uns misóginos, penso eu. Então, volto ao livro e já não tenho saudade dos meus anos de casada. A liberdade de não ter que dar satisfações e mesmo sozinha curtir a minha própria companhia é um indício que não precisamos depender emocionalmente do outro para ter bons momentos. Pago minha conta e saio caminhando vagarosamente pelas ruas ao rumo de casa. Estou só, mas me basto. 

Enfim, parafraseando o filósofo existencialista em O Ser e o Nada: "Eu estou condenada a ser livre."

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Medo



"Quero escrever o borrão vermelho de sangue com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro. Quero escrever amarelo-ouro com raios de translucidez. Que não me entendam pouco-se-me-dá. Nada tenho a perder. Jogo tudo na violência que sempre me povoou, o grito áspero e agudo e prolongado, o grito que eu, por falso respeito humano, não dei. Mas aqui vai o meu berro me rasgando as profundas entranhas de onde brota o estertor ambicionado. Quero abarcar o mundo com o terremoto causado pelo grito. O clímax de minha vida será a morte. "

Clarice Lispector

Dor e Sofrimento... Compaixão !














quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Evitar o sofrimento...



"Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa saúde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é. E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é o que faz de nós seres tão refinados. Por que é que não nos embriagamos ? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Por que é que não nos apaixonamos todos os meses de novo ? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita. Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer." 

Sigmund Freud

Náufraga...

"Nesse aspecto, o nome do pai, cuja ‘verdadeira função' é ‘unir (e não opor) um desejo à Lei', longe de gerar a culpa, mais faz tamponá-la. Essa é a tese que explica realmente o fato de a culpa só se elevar à certeza delirante nos casos de psicose, precisamente onde falta a mediação paterna" (Colette Soler in O que Lacan dizia sobre as mulheres)

"Era como se eu estivesse naufragando naquela imensidão, exaurida a ponto de submergir até as profundezas da solidão. Assim, quando aquele sufoco estava quase me asfixiando e eu conseguia me impulsionar até emergir para um único sopro de ar, algo me empurrava novamente para o fundo escuro. Não havia nada que pudesse me ajudar, nem mesmo ninguém por perto para me dar a mão e contraditoriamente muitos para pisar minha cabeça e me fazer afundar. A cada vez que conseguia vir à tona vinha a tormenta. Era tanta escuridão e desamparo que evitava respirar na entrega de tudo se acabar..." 

Aquelas palavras em forma de expressar todo sentimento de Sandra, me tocou a alma. Aquele semblante pesado, envelhecido e com os olhos opacos mirando o além, demonstram a dor de uma mulher abandonada. E, por fim, ela fechou: "Doutora, eu não tenho mais estrutura. Me sinto completamente destruída."  

Anos atrás, Sandra esbanjava alegria e beleza, com seus longos cabelos negros exalando um perfume adocicado e sensual. Irreverente e sempre muito falante encantava com seus olhos brilhantes nas intensas reuniões sociais. Jamais, imaginaria que aquela mulher pudesse ficar tão só e esquecida. Agora, Sandra se tornara anônima e vivia num ostracismo de cortar o coração. Talvez, todo sofrimento vivido pelas dores da existência tenha sido duro demais para Sandra e a fez surtar.

terça-feira, 4 de setembro de 2012


Cumplicidade...




"O diálogo que leva ao amor dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de se apresentar por nossas falhas, feridas e perdas." 

Contardo Calligaris

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Neurose... Uma maneira de ser e de reagir à vida.


"O neurótico tem a alma de uma criança e suporta mal as restrições arbitrárias, cujo sentido não reconhece; aliás, ele procura apropriar-se dessa moral, mas desavém-se consigo mesmo. Quer reprimir-se, por um lado, e libertar-se, por outro. A este conflito damos o nome de neurose." 
(C. G. Jung in Psicologia do Inconsciente) 

terça-feira, 28 de agosto de 2012

A insatisfação sexual dos relacionamentos estáveis...


"O instrumento mais usado pelo sistema para fortalecer a dominação é o sexo. 
O homem moderno... Conservou apenas como descarga da libido o ato sexual propriamente dito (...) contenta-se com satisfações apenas sexuais."
(Rose-Marie Muraro in Libertação Sexual da Mulher)


Bastante pertinente, a insatisfação sexual que assola os casais, como coloca a feminista Rose-Marie Muraro e a antropóloga Mirian Goldenberg. Vivemos na era das cobranças e, uma das maiores reclamações masculina é a exigência sexual em relação às parceiras como se fosse obrigação. Já, a maior reivindicação feminina está no afeto e compreensão. 

Assim, a coluna semanal do jornal a Folha de São Paulo publicou a seguinte matéria da antropóloga.




Para muitas mulheres, 
o sexo se tornou mais uma obrigação; 
e muitas preferem fingir a dizer não.

UM dos dados que mais chama a atenção nas minhas pesquisas é o da insatisfação sexual. A ideia de que o desejo sexual masculino é muito maior e o feminino é mais complicado está presente nos discursos de homens e de mulheres.

Uma professora de 37 anos diz: "Os homens acham que preliminares são minutos de carinhos na cama. Para mim, preliminar é tudo o que ele faz muito antes: a atenção, a delicadeza, o sorriso, a gentileza. Não adianta ser carinhoso na cama se passou o dia todo sendo agressivo, implicante ou desagradável".

Uma nutricionista de 52 anos reclama: "Meu marido acha que não tenho vontade de fazer sexo por estar na menopausa. Diz que muitas mulheres têm orgasmos múltiplos e eu não tenho nenhum há tempos. Com tanto blá-blá-blá fico mesmo sem tesão".

Ela diz que o filho, de 27 anos, prefere garotas de programa. "Ele é bonito e inteligente, pode ter a namorada que quiser. Mas acha as meninas chatas demais, querem jantar, ir ao cinema e, depois, ainda querem discutir a relação por SMS. Ele acha mais divertido e barato transar com garotas de programa."

Muitos homens reclamam das excessivas demandas afetivas e sexuais das mulheres.

Um economista de 45 anos diz: "Na hora de ir para a cama, minha mulher começa: você tomou banho, escovou os dentes, passou fio dental? Pagou o INSS da empregada? Levou o carro para o mecânico? É fácil entender por que tantos homens preferem prostitutas".

Um jornalista de 30 anos conta: "Depois que tivemos nosso filho, minha mulher não quer mais transar. Está sempre ligada no bebê, na casa, no trabalho. Diz que está exausta, que é uma fase e que não estou sendo compreensivo. Só que estou há mais de seis meses sem transar. Que homem aguenta?".

Um sociólogo de 49 anos afirma: "Se minha mulher quisesse, eu transava com ela todos os dias. Só que ela não quer. Eu preciso muito mais de sexo do que ela. Acho que é da natureza masculina. Por isso, tenho duas amantes. Não vou transar só quando ela quer".

Entrevistei muitas mulheres que fingem ter um orgasmo para poder dormir ou fazer as coisas que realmente querem fazer. Elas dizem que gostam de sexo, mas se sentem oprimidas com a obrigação de gozar cem por cento das vezes.

Não é estranho pensar que, para muitas mulheres, o prazer sexual tenha se tornado mais uma obrigação? E que muitas prefiram fingir a dizer não?

Fonte:  http://www1.folha.uol.com.br/colunas/miriangoldenberg/

MIRIAN GOLDENBERG, antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é autora de "Toda Mulher é Meio Leila Diniz" (Ed. BestBolso)

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A dor do adeus...


Se não me amas mais
Não pises em meu pranto.

Se não me queres mais
Não chutes meu desejo.

Se não me vejas mais
Não fures meus olhos.

Se não me suportas mais
Não apague minha luz.

Deixa-me com minha dor
Saia como entraste
Tua culpa fará teu sepulcro.
(C. Garcy)



Haviam algumas poucas roupas esquecidas no armário. Todos os dias abria a porta da lembrança, mesmo que fosse para sentir o aroma acre mofado. As camisas penduradas de tantos momentos vividos e presenteadas em datas especiais, os ternos intactos das noites alegres e uma íntima vontade de agarrá-los. 

Por muitos dias e meses, chorei nesse armário, afaguei teu lugar vago, senti o pouco do cheiro que sobrou de você. Havia ali, um resto dos anos deixados para trás. Uma pequena esperança da volta. Mas, Jorge não as haviam esquecido. Estavam lá somente para se fazer presente, caso quisesse voltar. 

Com o novo rumo, casou e não possuía mais laços em voltar. De súbito abriu o armário e levou sua permanência para outro alguém. Corri até a porta e com um nó na garganta o vi partir. Seu último olhar era para nunca mais voltar.

Chorei muito a solidão e a imagem daquele olhar de quem jamais me amou. É triste a agonia de uma espera sem sentido, donde nada voltará como antes.  

"Versos Íntimos"

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.









Toma um fósforo. Acende teu cigarro !
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.










Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija !
(Augusto dos Anjos - Versos Íntimos)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Jamais Permita... Poema Celta

As mulheres de origem Celta eram criadas tão livremente como os homens. A elas era dado o direito de escolher seus parceiros e a segurança de que nunca poderiam ser forçadas a uma relação que não era do seu agrado. Eram ensinadas a trabalhar para que pudessem garantir seu sustento, além de serem excelentes amantes, donas de casas e mães. A primeira lição que aprendiam era a seguinte: "Ama teu homem e o segue, mas somente se ambos representarem um para o outro: amor, companheirismo e amizade."





POEMA CELTA - Jamais permita

Jamais permita que algum homem a escravize: você nasceu livre para amar, e não para ser escrava.
Jamais permita que o seu coração sofra em nome do amor.
Amar é um ato de felicidade, por que sofrer?
Jamais permita que seus olhos derramem lágrimas por alguém que nunca fará você sorrir!
Jamais permita que o uso de seu próprio corpo seja cerceado.
Saiba que o corpo é a moradia do espírito, por que mantê-lo aprisionado?
Jamais se permita ficar horas esperando por alguém que nunca virá, mesmo tendo prometido!
Jamais permita que o seu nome seja pronunciado em vão por um homem cujo nome você sequer sabe!
Jamais permita que o seu tempo seja desperdiçado com alguém que nunca terá tempo para você!
Jamais permita ouvir gritos em seus ouvidos.
O Amor é o único que pode falar mais alto!
Jamais permita que paixões desenfreadas transportem você de um mundo real para outro que nunca existiu!
Jamais permita que os outros sonhos se misturem aos seus, fazendo-os virar um grande pesadelo!
Jamais acredite que alguém possa voltar quando nunca esteve presente!
Jamais permita que seu útero gere um filho que nunca terá um pai!
Jamais permita viver na dependência de um homem como se você tivesse nascido inválida!
Jamais se ponha linda e maravilhosa a fim de esperar por um homem que não tenha olhos para admirá-la!
Jamais permita que seus pés caminhem em direção a um homem que só vive fugindo de você!
Jamais permita que a dor, a tristeza, a solidão, o ódio, o ressentimento, o ciúme, o remorso e tudo aquilo que possa tirar o brilho dos seus olhos a dominem, fazendo arrefecer a força que existe dentro de você!
E, sobretudo, jamais permita que você mesma perca a dignidade de ser MULHER!

Fonte: O Bosque de Berkana
https://www.facebook.com/pages/O-Bosque-de-Berkana/206807786067043

domingo, 19 de agosto de 2012

Hoje não. Estou com dor de cabeça...

"Quando a mulher retoma sua dignidade e rejeita a prostituição velada do casamento, sua função perde o sentido"


Carolina por muitas vezes, para evitar cobranças ou ter enfrentar o mau humor de Carlos pela manhã, cedia ao sexo forçado como se fosse apenas um objeto. Assim, como tantas mulheres confessam, por temerem que seus maridos busquem em outras o sexo negado daquela noite. 

Não obstante, Carlos tinha aquela cobrança implacável como exigia desejo e performance no ato. Sempre acusando-a de traição para conseguir a todo custo seu escape de homem primário. Eis que, não havia a menor preocupação com o romantismo ou preocupação com o estado da mulher. 

A mulher casada é vista como propriedade privada pelo marido, cuja principal função se designa a manter a herança genética, através da maternidade. E, satisfazer as necessidades sexuais do marido como um depósito de esperma na demarcação do território. Tanto, que muitos maridos se recusam a usar preservativos com a esposa e se ofendem ao serem cobrados pelo método, seja como anticonceptivo ou por proteção contra DST. Muito embora, tenham casos extraconjugais expondo a mulher ao risco.

Carlos fazia parte dessa estatística, tinha amantes e mantinha uma vida promíscua, exigindo de Carolina que não usasse tal medida de proteção. Sempre com a mesma desculpa de que ela é quem o traia, bem como sustentava suas mentiras invertendo o jogo. Não bastou, para que a mulher aumentasse sua auto-estima, recuperasse dua dignidade de pessoa para que não tivesse mais serventia. Assim, o casamento acabou.

Então, a questão sexual para o homem ainda é uma manifestação de dominação e não é à-toa o chiste comum da "dor-de-cabeça" direcionado à mulher.