... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

domingo, 30 de setembro de 2012

Morte, numa visão acerca da libertação...

"Quando uma pessoa pensa em suicídio, ela quer matar a dor, mas nunca a vida" Augusto Cury 


"De repente a gente desiste de tudo... E aí, a vida perde o sentido. Deve ser por isso que muitas pessoas decidem morrer e para fugir do sofrimento dão um basta e acabam cometendo suicídio. Aliás, não gosto do termo suicídio, prefiro morte voluntária. Ou melhor, eutanásia. Pois, a morte seria a plena liberdade de toda dor e sofrimento... O êxtase final" 

Com essas palavras Camila definiu seu cansaço diante do conflito existencial,  em que a fez perder gosto pela vida. E, as noites insones a fazia pensar e refletir sem parar. 

"Não havia posição que aliviasse aquela dor de coluna que me entrevava na cama. Era como se meu corpo não suportasse mais um peso árduo demais. Aos poucos minhas pernas foram se fragilizando e me deixando desequilibrada, causando tropeços e tombos. Eu estou vivendo num corpo idoso demais para mim, cujo preço dessa dor havia me transformado em uma anciã. Sem perspectivas, sem esperanças e sem planos futuros. A cada dia eu atrofio e quando tenho minhas obrigações fora de casa me arrasto como uma réptil carregando o mundo nas costas. Meu rosto antes jovial, agora vive expressando a dor vincando minha testa. Toda a minha alegria esfuziante que refletia no brilho espelhado em meus olhos foi se tornando turvo, até não expressar mais nada. Apenas um olhar opaco sem horizonte ao alcançar. Estou muito cansada." 

Mas, o quê esta dor tão intensa e aguda representava ?

Considerando que a dor física pode ser uma reação afetiva de perda, com a intensidade ligada a uma perda imprevista, cujo equilíbrio se esvai. Talvez, seja isso a dor na coluna, o desequilíbrio motivado pelo sofrimento de uma perda. Pois, a dor específica numa determinada parte do corpo demonstra uma desordem psíquica, dado a situação de limite em que a dor psíquica emerge a dor corporal. 

Desta forma, a manifestação psicossomática vem da agressão externa em que o sofrimento ligado a psiquê não dá conta e transborda para a dor física. Sendo essas dores intrínsecamente ligadas. Assim, a dor corporal é um sintoma de uma agressão psíquica, seja por luto, por abandono ou por uma humilhação.

Exatamente o que Camila vinha vivenciando... Perdas sucessivas e rupturas de difíceis aceitação, com a agravante de estar totalmente desamparada e se sentindo humilhada pelo fracasso na vida pessoal a ponto de consequentemente abalar todos os alicerces construídos.

Os argumentos expressados para a possível "libertação", ou seja, a "eutanásia" proferida por ela não deixava de ter razão. A questão agora, era desistir logo ou tentar mais outra vez ? 

Voltando ao ponto da dor física, na linguagem corporal, "A coluna vertebral é o suporte do corpo. E o pilar da estrutura óssea e muscular. Ela é responsável pelos movimentos dos braços, pernas e dos órgãos. Pela análise psicológica, a coluna simboliza nossas raízes genealógicas e tudo que suportamos dos dilemas da vida. É como um grande pilar de um edifício, onde a parte invisível é a que sustenta a estrutura toda... Desvio da coluna significa que a pessoa tem medo de tomar decisões importantes porque teme perder ou magoar alguém. Ela está normalmente lotada de responsabilidades, sendo que a maioria dessas responsabilidades não deveria ser sua. Costuma assumir tarefas dos outros e, com isso, suas costas ficam sobrecarregadas... essa pessoa tem sempre dúvidas e não confia plenamente no futuro". Talvez, seja por isso que Camila, ainda hesitava em dar fim a vida. Haviam outros envolvidos e ela estava preocupada em não causar sofrimento aos demais. Enquanto, não suportava mais o peso do fracasso e somatizava a dor psíquica martirizando seu corpo. Estava estagnada.

Todavia, a dor corporal da coluna poderia, ainda representar a inflexibilidade de lidar com os problemas. Entretanto, especificamente, a dor intensa de Camila se dava na parte torácica, mais precisamente nas vértebras. E, assim leva a crer que: "As vértebras torácicas. Simbolizam as contrariedades. Problemas nestas vértebras ocorrem em pessoas que vivem suportando a vida da maneira que não gostam, que têm medo do fracasso, que culpam outras pessoas pelas suas tristezas, sentem-se amarguradas, recusam o amor por idealizá-lo demais, vivem conflitos internos por se sentirem rebaixadas pelos outros, têm medo de assumir sozinhas suas responsabilidades e fracassos, 'entopem-se' de motivos para não desfrutarem da vida e experienciam tudo que é relacionado com certas punições internas e sentimentos de culpa." (Cristina Cairo in Linguagem Do Corpo - Aprenda a Ouvi-lo Para Uma Vida Saudável). De certo modo, viver a vida dos outros ao invés de ter a sua própria vontade; abrir mão de seus planos e projetos em função do casamento; ocultar seus desejos e temer desapontar a expectativa do outro, por medo de magoar a outrem a fez cair nesse vazio. 

A dualidade de se libertar e seguir seus próprios desejos, esbarra com os grilhões de não poder segui-los. Para tanto, Camila, como Mulher Absurda, teria que quebrar as correntes e desatar os nós, por isso sua dor na coluna. Pois, carregava o peso do mundo nas costas até o topo da montanha que depois rolava ladeira abaixo.   


domingo, 16 de setembro de 2012

" ALMA DO POETA " Vinicius.C: Perdão

" ALMA DO POETA " Vinicius.C: Perdão: É crime olhar para o passado?   Lembrar sem nos tomar, ou tornar. Somos estaleiros incapazes de entender mais além. ...


Liberdade...

"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós." Jean-Paul Sartre


Na condição de mulher separada não me furto e muito menos me constranjo ao sentar solitária na mesa de um bar. Escolho um mais tranquilo, sem pessoas conhecidas e levo comigo um bom livro que será a minha companhia agradável da noite. O garçom gentilmente me traz um destilado e graciosamente infringe a norma da dose e deixa jorrar o famoso "choro". Cigarros, álcool e água gasosa na tentativa de dissolver a bomba dupla. Mas, ambas tem um único sentido; me relaxar do turbilhão de responsabilidades e problemas que me deixam ansiosa. 

Começo minha leitura, mas alguns fatos me chamam a atenção e me dispersam da concentração da narrativa do livro. Uma menininha de aproximadamente 4 anos de idade perambula em volta da mesa que estão um casal e duas mulheres, meu moralismo me alerta para o adiantado da hora para a menina em um bar, sem a menor atenção e entediada. Troco um olhar com a criança e basta para ela se aproximar languidamente num misto de timidez e tentativa de trocar alguma receptividade. Fico com pena e ofereço uma caneta e destaco uma folha do meu pequeno bloco de anotações. Seus olhos brilham pelo singelo gesto e já é o bastante para que ela se distraia num ambiente avesso à sua idade. O homem da mesa, naturalmente o pai, se comove com meu simples ato e lança a fatídica frase: "Agradeça à moça Isabela, diga obrigada". Ai, como deve ser chato para a criança a ordem de etiqueta social, afinal ela tampouco queria estar ali e apenas se sentiu acolhida pela caneta. Ora ! Que criança não se encanta com um pequeno instrumento lúdico que a faça rabiscar ?

Continuo minha leitura degustando o malte batizado com a água que imagino diluir minha solidão propositada. Evito olhar para a menina, a fim de impedir a distração do conteúdo que almejo absorver. A noite está agradável e de uma temperatura amena, como o livro me foi emprestado pelo meu ex-marido, acabo tendo vontade de trocar idéias com ele. Mas, sou impedida por imaginar que ele agora está ao leito com a outra. Rapidamente, me vem a mente que ele nunca se interessou pelos livros que gosto e, tampouco por política ou documentários do tipo. A nostalgia me toma a mente e sinto saudades de alguém que atualmente não conheço os gostos, os interesses e que seria tão providencial ao diálogo que não lhe interessava na época em que vivemos juntos. Meus olhos umedecem pela falta nesta altura da vida, cujo tempo já vai para mais de 40 anos e, dou um leve sorriso a mim mesma, ao lembrar que em poucos instantes que fui apontada como "a moça".  

De repente, à minha frente um casal apresenta um atrito que me desconcentra a leitura. Uma mulher de aproximadamente 30 anos, muito bonita, esbelta, com longos cabelos negros e trajando uma blusa do fluminense está chorando e o parceiro, também beirando a mesma idade e de camiseta do mesmo time, levemente obeso, sem qualquer atrativo, cara fechada, não responde uma só palavra da mulher. Ela falando baixo e entredentes, enxugando as lágrimas que insistem em revelar seu descontentamento e ele impávido. Surge alguns gestos bruscos em que ele tenta se desvencilhar de alguma solicitação, aparentemente parece ser as chaves ou, talvez, o telefone celular, não sei ao certo. Em súplicas ela se humilha e o homem torna-se mais irascível ainda, pouco se importando em expô-la aos outros da sua grosseria. Subitamente me dá uma raiva do protótipo arrogante e tenho vontade de falar alto para essa mulher que não precisa se rebaixar e interferir no desacordo da Bela e a Fera. Mas, quantas mulheres já não passaram por isso ? E, quantas vezes estive na mesma situação que me paralisava diante das grosserias do meu ex-marido. E, assim ele sai na frente e ela como uma colonizada pelo seu dono atrás.

Na outra mesa repleta de meia-dúzia de casais, os homens aparentando cinquentenários dão risadas comentando maldosamente o episódio e evidenciam expressões sexistas. Devem ser uns misóginos, penso eu. Então, volto ao livro e já não tenho saudade dos meus anos de casada. A liberdade de não ter que dar satisfações e mesmo sozinha curtir a minha própria companhia é um indício que não precisamos depender emocionalmente do outro para ter bons momentos. Pago minha conta e saio caminhando vagarosamente pelas ruas ao rumo de casa. Estou só, mas me basto. 

Enfim, parafraseando o filósofo existencialista em O Ser e o Nada: "Eu estou condenada a ser livre."

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Medo



"Quero escrever o borrão vermelho de sangue com as gotas e coágulos pingando de dentro para dentro. Quero escrever amarelo-ouro com raios de translucidez. Que não me entendam pouco-se-me-dá. Nada tenho a perder. Jogo tudo na violência que sempre me povoou, o grito áspero e agudo e prolongado, o grito que eu, por falso respeito humano, não dei. Mas aqui vai o meu berro me rasgando as profundas entranhas de onde brota o estertor ambicionado. Quero abarcar o mundo com o terremoto causado pelo grito. O clímax de minha vida será a morte. "

Clarice Lispector

Dor e Sofrimento... Compaixão !














quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Evitar o sofrimento...



"Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa saúde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é. E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é o que faz de nós seres tão refinados. Por que é que não nos embriagamos ? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez. Por que é que não nos apaixonamos todos os meses de novo ? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita. Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer." 

Sigmund Freud

Náufraga...

"Nesse aspecto, o nome do pai, cuja ‘verdadeira função' é ‘unir (e não opor) um desejo à Lei', longe de gerar a culpa, mais faz tamponá-la. Essa é a tese que explica realmente o fato de a culpa só se elevar à certeza delirante nos casos de psicose, precisamente onde falta a mediação paterna" (Colette Soler in O que Lacan dizia sobre as mulheres)

"Era como se eu estivesse naufragando naquela imensidão, exaurida a ponto de submergir até as profundezas da solidão. Assim, quando aquele sufoco estava quase me asfixiando e eu conseguia me impulsionar até emergir para um único sopro de ar, algo me empurrava novamente para o fundo escuro. Não havia nada que pudesse me ajudar, nem mesmo ninguém por perto para me dar a mão e contraditoriamente muitos para pisar minha cabeça e me fazer afundar. A cada vez que conseguia vir à tona vinha a tormenta. Era tanta escuridão e desamparo que evitava respirar na entrega de tudo se acabar..." 

Aquelas palavras em forma de expressar todo sentimento de Sandra, me tocou a alma. Aquele semblante pesado, envelhecido e com os olhos opacos mirando o além, demonstram a dor de uma mulher abandonada. E, por fim, ela fechou: "Doutora, eu não tenho mais estrutura. Me sinto completamente destruída."  

Anos atrás, Sandra esbanjava alegria e beleza, com seus longos cabelos negros exalando um perfume adocicado e sensual. Irreverente e sempre muito falante encantava com seus olhos brilhantes nas intensas reuniões sociais. Jamais, imaginaria que aquela mulher pudesse ficar tão só e esquecida. Agora, Sandra se tornara anônima e vivia num ostracismo de cortar o coração. Talvez, todo sofrimento vivido pelas dores da existência tenha sido duro demais para Sandra e a fez surtar.

terça-feira, 4 de setembro de 2012