... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

domingo, 11 de novembro de 2012

Transferência...



Em pleno tratamento de uma depressão que já vão há mais de dois anos, sempre existe um motivo para me impedir de ir ao consultório da Dra. Iná. Mesmo assim, nunca faltei sequer uma sessão, aos trancos e barrancos me arrasto literalmente todas as terças-feiras sem me atrasar. Mas, desta vez estava com uma virose que me debilitava o corpo, sem contar no contágio que poderia causar transtornos à saúde da minha terapeuta, como de seu filho acometido de um tratamento por quimioterapia. 

Adiei minha hora de consulta sobre os protestos da Dra. Iná e, não tive argumentos suficientes para retornar somente na semana seguinte. Então, a sessão estava marcada para o dia seguinte. 

Pela primeira vez, nesses dois anos de tratamento me atrasei muito, uns quarenta minutos, me restando a sobra de dez minutos suficientes para pegar a minha receita dos anti-depressivos. Obviamente, tudo dentro do campo do inconsciente. Mas, do que eu estaria fugindo desta vez que fosse tão combativo a ponto de me tornar irresponsável quanto ao meu tratamento ?

Assim, que cheguei logo ouvi a devida intervenção.

- Hoje você se atrasou e teremos apenas alguns minutos, mas vou estender a sessão. Sei que você necessita.

Ao sentar no divã desabei em prantos e soluços, envergonhada pela minha dor diante do imenso sofrimento vivido por àquela mulher, mãe, e sendo privada do convívio e cuidados do filho extremamente doente. A culpa me rasgava o peito, como eu poderia falar da minha dor tendo alguém tão mais sofrida na minha frente ? Eu não podia ser tão egoísta desta forma e consegui respirar fundo e dizer:

- Dra. me perdoe, mas acho que o fato de estar muito gripada me fez sentir culpada em transmiti-la à você por causa da situação do Tarik. 

- Não se preocupe, muitos pacientes estão gripados e eu também. Mas, me conte. O que houve ?

As lágrimas pulavam dos meus olhos sem que eu pudesse contê-las. Na verdade eu queria era retribuir todo carinho e dedicação recebidos, abraçando-a e deixando-a chorar toda a sua dor nos meus ombros. Me senti no lugar dela, com aquela dor toda sendo obrigada a trabalhar e manter a postura de cuidadora de sentimentos destroçados a procura de colo. 

- Não sei o que está acontecendo. Entrei na transferência e estou sofrendo muito pela sua dor, não sei como você está aguentando tudo isso ?

- Ora ! Você é mãe e está se colocando na minha situação. Quantas vezes aqui, expôs sua preocupação com o João ? É normal, que se sinta afetada com que estou passando. 

- Admiro a sua coragem e força para enfrentar um caos desses, sinceramente eu não suportaria tamanha dor. 

- Kátia, eu tenho aprendido muito com você. Até agora, só vejo você ter uma desilusão atrás da outra, quantas vezes trabalhamos o seu luto aqui ? E, olha que não foram poucos. Também, as várias porradas que a vida tem lhe dado nesse curto período de tempo ?

Assenti com a cabeça, numa maneira para deixá-la falar na tentativa de colocar para fora todo o sufoco vivido. E, deu certo. Assim, ela falou do quanto estava cansada e como sofria em ver a luta diária do filho em busca da vida, mas que o câncer era a "tristeza das células"...

Para nossa sorte, a paciente seguinte se atrasou e podemos conversar durante uma hora pontuando na questão emocional a doença do Tarik. Aquilo me aliviou e acalmou a minha alma tão amargurada. Olhei para ela e disse:

- Eu te amo.

- Eu também te amo. 

Vi nos seus olhos um brilho e pude entender o que é transferência.