... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O despejo da alma...

"Separações e mudanças são muito difíceis, principalmente quando você é pega de surpresa. Imaginar que alguém escolhido para dividir uma vida íntima, com planos e projetos futuros quebra o contrato do amor é uma decepção, jamais compreendida." C. Garcy



A ordem de despejo vem concretizada pela intimação e logo, começa o pânico de deixar para trás todos àqueles anos de um lar. Aos poucos, a ansiedade toma conta pelas tantas e infinitas visitas para uma nova moradia. Foram se construindo expectativas simbólicas não concluídas. 

Contudo, chega o momento de encaixotar lembranças de um casamento findo. Olho para a casa quase nua e choro pelos momentos vividos, como os momentos futuros interrompidos. A pressa da transportadora não se sensibiliza com a nossa vida ali desmembrada. 

Levo comigo minhas dores e, no desarrumar das caixas repletas de lembranças revejo registros de uma vida compartilhada de sonhos que não se realizaram. As fotografias de momentos felizes, durante nossas comemorações das datas alegres, os bilhetes amarelados das juras de amor eterno, as cartas movidas de paixão numa das brigas de ciúme, as roupas deixadas já mofadas, os desenhos do nosso filho fruto daquela paixão desmedida que me fez jogar para alto outros planos. 

Cada objeto trás uma história, nossos lençóis rotos que insisti em guardá-los como se pudesse detê-lo em nossa cama. Nem mais o cheiro adocicado do perfume misturado ao suor dele restou. Sofro a ter que me desfazer dos nossos laços representado em cada mobiliário da casa, agora enxuta e tão pequena como meu coração atrofiado pelas perdas. 

Sinto uma solidão insuportável e uma estranha na casa ainda desarrumada. Tudo ficou para trás, sem que ele se sensibilizasse com as mudanças. É como se um imenso alívio transbordasse seu âmago. Até a família não existe mais, o desprendimento do vínculo paterno se faz notório, trazendo mais abandono e dor. 

Olho pela tela da varanda e sinto uma angústia incomensurável, como se estive num cárcere pagando por um crime que não cometi. O abandono afetivo, junto com o desamparo me levam a clamar por findar todo o sofrimento que não sou capaz de suportar. 

Estou paralisada numa tristeza difícil de acreditar pela infelicidade que se tornou minha vida. Furtada de todo afeto e compaixão, não existo mais. Apenas, vegeto nesse novo lugar que me entristece no vazio do esquecimento como uma roupa surrada jogada fora. 

Sou uma estranha do meu próprio destino provocado por alguém que não conheço mais. Despejada da alma e esquecida num apartamento de fundos no anonimato de uma relação sem vínculos. Dos quais somente restaram as minhas lembranças.