... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Além, da traição...


“A infidelidade é uma quebra de confiança,    a traição de um relacionamento, o rompimento de um acordo” 

(PITTIMAN, in Mentiras Privadas)


 
De um assunto sobre relacionamentos passados, vem à baila a estória de um dos casamentos desfeitos de João. Atenta ao semblante do desabafo, em que me é exposta a sua dolorosa experiência vivenciada no passado marcante. Escuto estarrecida, não somente por se tratar de um mero deslize extraconjugal, mas sim, da sórdida tríplice combinação Infidelidade - Traição - Deslealdade. Ocorrida entre sua ex-mulher e seu amigo mais íntimo debaixo do próprio teto conjugal, sobre os lençóis cúmplices da cama dividida.

Em plena efervescência do Regime Militar, João e Juliana, membros da Resistência à Ditadura que assolava as liberdades individuais, entram para luta armada e, consequentemente para clandestinidade. Acolheram então, Anselmo, que além de membro da organização em comum era um grande amigo, em seu humilde apartamento de quarto e sala, mais conhecido na linguagem da época por “aparelho”.

Eram tempos difíceis, em que o medo e pânico assombravam aqueles militantes. Mas, a compaixão, o humanismo e o amor sublime pelo semelhante superavam qualquer impedimento. Assim, Anselmo permaneceu no esconderijo ofertado pelo amigo João, aos cuidados da companheira Juliana.

Nas manhãs ensolaradas, Anselmo desfrutava dos banhos de sol na estreita sacada do sétimo andar, obviamente na companhia da mulher do amigo. Enquanto, João em suas atividades e ações, se ausentava na maior parte das horas do dia ou da noite, somente ocupando seu leito conjugal às altas horas.

Exausto, abatido e pálido ignorava que em seu afastamento sua cama era preenchida pelo suposto amigo Anselmo. Até se surpreender com os entre olhares dos amantes.

Não obstante, à decepção dolorosa pela traição da mulher e do amigo, ainda caiu nos porões do Doi-Codi. Eis que, os amantes se abstiveram de qualquer esforço em proteger o companheiro. Bastou o primeiro tapa, no interrogatório da polícia repressiva, para que Anselmo entregasse Juliana e esta, sucessivamente entregasse João.

Na prisão, João amargou a mais profunda solidão sofrida da traição e da deslealdade. Apesar de compreensivo e, até benevolente demais, tenta ainda hoje, justificar a falta de caráter de ambos amantes com a culpa indevida pela sua ausência no leito conjugal.

Indignada, o interrompo e afirmo que não se trata de falta de atenção. Muito pelo contrário, a questão em voga é a ausência de afeto que além, de Imoral é também, Antiética.

Contudo, ele continua: - Talvez, Juliana tenha tido seus motivos. Eu estava tão magro, sem atrativos e estressado que falhei na questão sexual. Daí, ela se viu carente.

Como neurótica que sou, percebo que João não se sente capaz de ser merecedor da felicidade, toda a culpa do mundo é carregada nas costas. Talvez, a teoria Jungiana tenha razão. Pois, João não é o responsável pela traição de Juliana. E, "se apesar disto, ainda for atormentado por sentimentos de culpa, deve refletir então, sobre os pecados que não cometeu e que gostaria de ter cometido. Isto poderá eventualmente curá-lo dos seus sentimentos de culpa relativamente à sua ex-mulher."