... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Não tire minha solidão... Se não é capaz de me ter inteira.

"Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta. Não podemos nunca esquecer que os sonhos, a motivação, o desejo de ser livre nos ajudam a superar esses monstros, vencê-los e utilizá-los como servos da nossa inteligência. Não tenha medo da dor, tenha medo de não enfrentá-la, criticá-la, usá-la." Michel Foucault




Já havia bastante tempo exilada em meu mundo, entregue à minha pequena biblioteca literária, vivendo meu ostracismo produtivo. Quase não tinha vida social, senão nos encontros semanais do jornal. Até que, perante tantas desculpas pela ausência, resolvi despretensiosamente aceitar um convite de festa. 

Revisitei meus vestidos e como toda mulher que um dia fora vaidosa, inevitável a indecisão. A cadeira do quarto foi se acumulando dos tantos vestidos que nem mais imaginava que tinha, para finalmente escolher o mais clássico. Era um bem antigo tubinho preto rendado de comprimento a dois dedos dos joelhos. Para combinar bastava um par de sapatos pretos tipo scarpin, que já nem sabia se conseguiria me equilibrar. Havia tempo que não usava salto alto. 


Enquanto tomava meu banho, separei o vestido juntamente com os sapatos e bolsa combinando, um par de meias finas pretas, um colar de pérolas com brincos também em pérolas. No chuveiro ainda, titubeava se iria ou não a tal festa, sentia preguiça em me arrumar.


De banho tomado, fui me vestindo aos poucos, a caixa de jóias trancava lembranças do passado, mas evitei pensar, sendo que quase por impulso peguei na aliança. Porém, bastava um belo anel de pérolas com brilhantes para compor. Diante do espelho percebi o quanto meu rosto perdera o brilho e, não somente as marcas da idade, como também o divórcio havia me envelhecido. Tendo em vista, a desagradável surpresa pelos anos passados desapercebidos antes, resolvi caprichar na maquiagem favorecendo meus olhos negros delineando-os com lápis e rímel; a tez branca preenchi com pó compacto mais escuro e finalizei com um batom carmim. Nos longos cabelos fiz uma trança.


De repente, me vi bonita e desejável novamente, se não fosse a melancolia das gotas de Giogio, que me trouxera uma época feliz pretérita que não voltaria mais.


A noite foi agradável e me surpreendi com tantos olhares admirados, pois ainda me fazia bela. Até que conheci um belo homem que se aproximou puxando assunto que me interessou. Alto e bem vestido, aparentava idade compatível com a minha, uns poucos anos a mais. Culto e bastante gentil, as horas transcorreram em segundos entre algumas taças de espumante, sem que eu percebesse. Trocamos telefones e nos despedimos ali mesmo, apesar da insistência em me levar em casa.


Dormir o sono dos justos, ao ser acordada pelo galante da noite anterior, num convite para almoço, que recusei por afazeres e responsabilidades domésticas. Talvez, meu inconsciente soubesse do impedimento que estava por vir. 


Não tardou a recusa, para que ele insistisse em novo encontro marcado que cedi e novamente, a indecisão dos vestidos. Desta vez, ousei num longuinho estampado de costas nuas, sandálias e bolsa vermelhas com bracelete em prata e maquiagem suave. Bastava uma água de colônia, cabelos soltos e lá estava ele a minha espera, muito bem vestido com camisa em tom rosa pastel e calça social.


Como um bom cavalheiro, fomos a um excelente restaurante, apesar da minha inapetência. Nossas conversas eram intermináveis e havia sempre uma gentileza inevitável de não apreciar, entre as taças do tinto português dei boas gargalhadas. Acabamos esticando numa casa de samba na Lapa. 

No dia seguinte, comecei a me sentir desejada e valorizada por todos os gestos de carinho, romantismo e quase permiti me relacionar novamente. Se não fosse, a decepção do príncipe transformar-se em sapo. Pois, aquele homem que me cortejava era casado e havia mentido para mim. 

Assim, recolhi-me novamente ao ostracismo e comungo das companhias literárias. Já que, jamais faria com alguém àquilo que não gostaria que fizessem para mim.