... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

terça-feira, 26 de abril de 2011

E, Ele se foi...



Já se vão anos, longos anos compartilhados com José, desde momentos felizes a algumas crises contornadas pelo seu ciúme infundado e diversas cobranças. Bem mais velho e experiente, com o passar do tempo essa diferença de idade passou a incomodá-lo.

Ultimamente, passou a se ausentar mais em virtude do trabalho indo para o campo e espaçando cada vez mais seu retorno ao nosso lar. Avesso a compartilhar uma vida social e a se permitir viagens de férias, levamos uma vida bem típica pequena burguesa, apenas compartilhando as datas festivas com a família.
Foi quando de repente veio a primeira indagação.

- Querida, você ainda me ama?
Imaginei algum incômodo sentido por insegurança, prontamente respondi:
- Claro que amo, por quê?
- É que não sinto que ainda me ame e não vejo você feliz comigo.
- Deixa de besteira, fique tranqüilo que jamais lhe abandonarei.

A conversa se dispersou e surgiram outros assuntos cotidianos, já que ele não era chegado aos meus interesses literários, políticos ou filosóficos.

José passou a se comportar desconfiado, possessivo e muito ciumento. Entretanto, não havia motivo algum para tamanha insegurança, já que sempre fui honesta e de uma fidelidade canina. Apesar, de não suportar discutir a relação como era de seu feitio.

Um mês após, novamente a preocupação.

- Maria, você pensa em separar de mim?
Mas, o que está acontecendo? Novamente essa insegurança? Pensei.
- José fique tranqüilo não há a menor possibilidade. Afinal, passamos tantas coisas juntos, minha doença, crise financeira e agora que estamos bem não há motivos para esse tipo de questionamento. Por que, você pensa em se separar?
- Não, Maria, jamais abandonaria você.
- Então, esqueça, ficaremos velhinhos rabugentos juntos. Respondi rindo.

Seguimos nossas responsabilidades de trabalho normalmente, inclusive eu estava numa fase boa profissionalmente. Mas, as desconfianças no âmbito emocional se intensificaram. José passou a receber mensagens anônimas alegando que tomasse cuidado comigo porque seus chifres não passariam da porta. Com isso, passou a ter um comportamento irritadiço e agressivo.

Bem próximo ao meu aniversário, cuja data em todos os anos sempre fora comemorada rodeada de amigos, na Páscoa, fomos almoçar num restaurante simples e o pior aconteceu. José queria se separar porque tinha absoluta certeza que eu não o amava mais. A refeição bateu no meu estômago feito uma brasa incandescente. Não pude conter minhas lágrimas e disse:

- Vamos embora, perdi o apetite e estou muito triste.
- Não chora, você não está feliz mesmo ao meu lado. Acho que vai ser melhor para você. Respondeu.
Percorremos o caminho de volta pra casa abraçados, com José me consolando. A dor era forte e havia um nó em minha garganta.

Pensei, isso não está acontecendo, logo agora que estamos bem, tranqüilos, minha vida profissional e financeira estabilizada. Deve ser um blefe como tantas vezes ele fez comigo me ameaçando por insegurança e manipulação.

Conhecia José profundamente, se esta estória de separação é verdade, deve haver outra pessoa entre nós. Depois, do susto fomos conversar.

- José seja sincero você tem outra?
- Claro que não, acho é que você está apaixonada por outro e está infeliz ao meu lado.
- Não tenho ninguém José, pode abrir o jogo quem é ela?
Grosseiramente, respondeu.
- Não tenho ninguém! Só não vejo você feliz ao meu lado.

Com efeito, José tinha um caso e para se justificar da traição depositou toda a culpa nos meus ombros me acusando injustamente de inúmeras situações inverídicas, como uma avestruz que esconde a cabeça sob um buraco deixando o rabo de fora. Afinal, como bem disse Sartre: “O inferno são os outros”.

Não bastou, investiguei e descobri que José tinha uma amante e se envolvera a ponto de se sentir pressionado a sair de casa. Mas, a culpa era minha que não o amava.

O período de separação foi bastante doloroso, José chegou a voltar atrás se dizendo arrependido. Mas, Geni estava sempre se fazendo presente, com intuito claro e notório de tê-lo pra si. Usou de todas as armas possíveis e imaginárias. Passando por cima dos princípios básicos da moral e da ética. Eram telefonemas anônimos, aproximação à pessoas do meu meio social, investigações em que sabia de todos os meus passos e da minha vida.

Adoeci de tristeza, deprimida não conseguia trabalhar, fazer minhas tarefas rotineiras e o pior de tudo, via o sofrimento do meu filho chorando pelos cantos. A família ruiu. Solitária e bastante machucada fui exposta.

Geni é uma mulher bem mais velha, quase como José, sem nenhum atrativo físico, intelectualmente inferior a mim, feia, fútil e sem afeto aos próprios filhos. Mas, costumava colecionar relacionamentos com homens casados e, finalmente triunfou em suas investidas. Pois, José se foi, apesar de vinte anos de relacionamento.

                                                            "Tudo que é sólido se desmancha no ar" Marx