... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Entre a Cruz e a Espada...

"Meu marido me deixou (...).
Então, doutor, esse tormento foi constante até eu não suportar mais, não aguentei essa mesquinharia e aceitei o convite de trabalho (...). Lógico que meu marido foi contra, mas me impus e fui a contragosto dele. (...), porém, optei por não depender mais do dinheiro do meu marido" (Mulheres em Aflição - Paulo Miguel Velasco)




Era difícil depender financeiramente dele para tudo. Sempre obrigada a dar satisfações sobre as necessidades que precisava, o olhar recriminador sobre as compras, as viagens nunca realizadas e a ladainha de que não havia dinheiro. 

Logo que me casei, tinha um cargo no serviço público com um salário bem defasado. Então, diante das argumentações dele, optamos em conjunto pela minha exoneração. Assim, eu podia exercer meu trabalho como profissional liberal, eis que havia a flexibilidade de horários entre as obrigações da casa e do trabalho. Mas, o início da carreira era muito difícil até formar uma boa clientela. Depois, veio os filhos e a dificuldade era ainda maior.

As mulheres casadas, com filhos que mantêm uma atividade profissional precisam se desdobrar em função da dupla jornada, quiçá tripla contando com a atenção conjugal. E, inevitavelmente, se culpam duplamente pela ausência na atenção à família e, pela atenção à família na ausência ao trabalho. Comigo, não foi diferente.

Além, dos compromissos profissionais, existiam as doenças, as cobranças de atenção e, a indagação perversa do marido: "O que você tanto faz naquele escritório que não possa fazer em casa ?"

Nos arrumamos para estar apresentável ao trabalho como uma profissional, desde roupas adequadas com sapatos de salto, unhas e cabelos feitos e maquiagem de acordo. Na folga optamos pelas roupas despojadas e a falta de vaidade é inevitável.

O cansaço físico do dia de trabalho acrescido da preocupação daquele trabalho por entregar ou os horários inevitáveis dos compromissos do dia seguinte, muitas vezes nos levam a cumprir a atenção sexual por obrigação. 

Quantas vezes, ouvi cobranças e vivenciei o mal-humor do meu marido pela necessidade da satisfação sexual, quando não culminava em brigas nas madrugadas em pleno ato. Com o relógio ali, na cabeceira da cama, a me sentenciar das responsabilidades seguintes em poucas horas depois. 

Com os anos atingi minha independência financeira, obviamente dentro de um padrão de vida mais elevado por conta da nossa participação econômica em conjunto. Portanto, aos 40 anos, com filhos já crescidos, tinha estabilidade financeira e um casamento durável que resistiu as dificuldades e agregava realizações. 

Entretanto, a falta de atenção por conta da rotina profissional e a ausência daquelas viagens almejadas levou-nos a monotonia. E, apesar de não depender mais financeiramente do marido, estava sendo deixada por ele. Agora, dependia dele emocionalmente, caindo em profunda insatisfação e percebendo que autonomia não converge com homens machistas.