... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

No fundo do poço...

"O assédio se instala quando o diálogo é impossível e a palavra daquele que é agredido não consegue fazer-se ouvir. Prevenir é, portanto, reintroduzir o diálogo e uma comunicação verdadeira"

“Sua vida consiste em procurar seu reflexo no olhar dos outros. O outro não existe enquanto indivíduo, apenas enquanto espelho”. (Marie-France Hirigoyen)



A dor me apertava o peito, em decorrência da ansiedade, em tentar por vezes falar com Diogo que sistematicamente não atendia minhas ligações ou sequer respondia minhas mensagens.

Aquilo estava acabando comigo, ou melhor, com pouco de mim que ainda restara, depois de tanta crueldade e humilhações sofridas. A cólera tomava conta da minha mente me sufocando pela tentativa de conversa negada. Insisti mais uma vez e ele atendeu disfarçando que não estava ouvindo.

- Alô !
- Alô, Diogo sou eu.
- Alô, alôoo... Alôoooo...

Desligou, mesmo sabendo quem era, em mais uma tentativa de me evitar. Liguei novamente e ele atendeu já pronto com uma desculpa esfarrapada para não falar comigo.

- Oi, está me ouvindo agora ?
- Olha estou em São Paulo à trabalho e não posso perder tempo conversando com você agora, Olga, quando chegar em casa lhe retorno.
- Toda vez é isso, Diogo, você nunca pode falar... 
- Depois eu ligo, tchau, beijo.

E, desligou. Aguardei seu retorno o dia todo e nada. Na manhã seguinte, amargurada e profundamente magoada, insisti novamente e por duas vezes não atendeu. Enviei-o uma mensagem: "Por que você faz isso comigo ?"

Em seguida, ele me retornou, mas com uma nova mentira na ponta da língua.

- Olga, estou ocupado agora, no Teatro Municipal tratando de negócios e não posso falar com você agora.
- Já está no Rio ? 
- Estou, beijo, tchau.

Movida pelo desespero em falar com Diogo, afinal tivemos uma vida em comum, com responsabilidades e um filho, cujos problemas têm que ser divididos, apesar de guardiã. Visto-me rapidamente e tomo um ônibus em direção ao Centro da cidade na expectativa de encontrá-lo. Pois, já estava quase na hora do almoço e provavelmente ele estaria por algum restaurante por perto.

Recebo sua ligação no trajeto a caminho.

- Alô, Olga, o que você quer ?
- Preciso conversar com você, ainda está no Centro ?
- Você está aonde ?
- Estou no ônibus a caminho do Centro. Podemos nos encontrar ?
- Não, estou já em Copacabana.
- Então, posso encontrar com você aí ?
- Não, estou de saída e dirigindo.

Numa pequena pausa, me sentindo humilhada, começo a chorar pelo desprezo, pela mentira deslavada de Diogo. É um choro sofrido, em que todos os presentes me olham com curiosidade, mas ao mesmo tempo com piedade.

- Escuta, Olga, conversamos amanhã, ok ?
- Você nunca pode falar comigo, esperei ontem o dia todo sua ligação e nada.
- Cheguei tarde por isso não liguei.

Entre lágrimas e voz trêmula, disse:
- Mas, você sabe que durmo tarde...
- Olha só, depois quando chegar em casa ligo, beijos.

Aturdida, me sentindo extremamente desamparada, com choro compulsivo sigo o trajeto de ônibus sem ter noção de onde estou ou para onde ir. Até parar no consultório da minha psicanalista... Depois, de um longo tempo, ainda muito perturbada, de rosto inchado evidenciando meu estado decadente, não posso voltar para casa. Pois, não posso deixar que meu filho me veja nesse estado. Até porque está sofrendo muito pela ausência paterna com sua visitação interrompida.

E, então vou para meu escritório e me escondo do mundo. Permaneço por horas esvaziando meu pranto, lembrando das privações, das dificuldades financeiras, dos momentos difíceis, das faltas, da ausência e de todos os momentos vividos dos quais passei ao lado de Diogo, sempre o apoiando, para que depois me abandonasse sem qualquer gratidão. 

Doente e criando sozinha meu filho, não podia contar nem com a ajuda do pai que se recusava em lhe dar atenção. Já tarde da noite tenho que voltar para casa, depois de caminhar debaixo de uma tempestade torcendo para que um raio me parta ao meio.

Diogo havia me roubado a juventude e minha auto-estima, assim como abandonado a família. Deixando nas minhas costas todas as responsabilidades e obrigações.