... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Sem culpa e sem afeto...


"Fazer o mal é um erro de cálculo, não um ato culpável. (...) 'Por favor, eu realmente o amo. Se ficarmos juntos nesta, serei totalmente dedicado a você! Mas, cuidado! Se você me rejeitar, posso perder o controle e desgraçar a sua vida!' (...) alguém que está pronto para me prejudicar se eu o contrariar não pode realmente me amar e estar devotado à minha felicidade, como afirma."
(Slavoj Zizek in Como Ler Lacan)

Comprometida com meu tratamento psiquiátrico levantei-me da cama com extrema dificuldade, sentia-me o próprio personagem da mitologia grega, Athas, carregando o mundo nas costas.

Em passos lentos e claudicantes cheguei ao banheiro para entrar no chuveiro e tomar um banho, ultimamente nem mesmo tratar da minha higiene pessoal conseguia. A água morna correndo pelo meu corpo parecia levar pro ralo toda a minha alma embotada daquela dor insuportável. 

Vesti-me com a primeira peça de roupa vislumbrada dentre tantas outras jogadas pelo quarto e nem sei como consegui sair de casa para tomar um táxi rumo ao consultório da minha psiquiatra que já me aguardava para mais uma sessão.

Estava tão evidente o meu abatimento e sofrimento que fui recebida com um abraço afetivo capaz de me tranqüilizar do pânico vivenciado do trajeto de casa ao consultório, confortando assim todo o meu desamparo.

Iniciei a sessão comunicando que meu ex-marido queria conversar com ela e, eu mesma estava disposta a uma internação, dado aos pensamentos suicidas me desesperando incessantemente por acreditar que havia ficado louca. Para minha surpresa, de pronto obtive a resposta negatória de todas as premissas abordadas, como ainda, fui alertada da manipulação perversa engendrada por aquele que durante anos fui casada.

- Você se esqueceu que está doente por causa dele ?
- Mas, ele quer contar a versão dele sobre a separação. Pois, acha que não estou sendo sincera e fantasiei coisas. Talvez, seria uma forma de positiva no meu tratamento e saber que não inventei nada.
- Diga-o que somente atendo no consultório os neuróticos, pois os psicóticos atendo-os no hospital psiquiátrico. Veja bem, estou aqui para lhe ajudar e você não é psicótica. Da mesma forma que me disponho a acatar sua vontade, caso você queira retornar ao seu casamento.
- Meu casamento está acabado e, não há mais volta. Só preciso esquecer João porque mesmo deprimida, fragilizada ele ainda, me joga na cara a separação e me diz coisas horríveis, demonstrando tanto rancor e mágoas que me sinto culpada.
- Não o julgo por ele ter se envolvido com outra pessoa e se separado de você, apenas o acho mau-caráter pelo estado em que lhe deixou. Mesmo, ciente da sua doença, ele insiste de forma sádica em manipulações jogando a culpa dele encima de você.

Começo a chorar em lembrar de todas as maldades que João ainda continua a fazer comigo e permito de uma forma masoquista alimentando seu sadismo. E, digo entre fungadas:

- Será que essa dor nunca vai passar ? Não estou mais agüentando tanto sofrimento Dra. Rita, perdi a vontade de viver.
- Calma ! Isso vai passar e você vai conseguir se reerguer. Apenas, você tem que evitar contato com João, senão vai acabar virando uma psicótica mesmo. Pois, ele é mais doente do que você está agora, não sente culpa alguma por ter feito o que fez com você e pelo comportamento dele sempre teve amantes.
- É verdade, ele sempre teve desconfiança de mim sem motivos e por tantas vezes o peguei em mentiras.
-Vá para casa descansar e se olhe muitas vezes no espelho. Não foi você que perdeu, ele que saiu perdendo nessa estória, com o tempo ele perceberá isso.

Fui para casa e entendi que João nunca havia me amado, apenas fui útil quando necessário e no momento que passei a ter minhas próprias escolhas fui descartada como um objeto usado.