... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

"O inconsciente ao céu aberto"

“Na psicose vemos se revelar, e da maneira mais articulada, essa frase, esse monólogo, esse discurso interior.
(…) No discurso alucinatório, o discurso do inconsciente está literalmente presente” Lacan


Quando Aníbal deixou Clara, o fez de maneira tão surreal que ela mesma não podia acreditar no acontecido. Perpléxia, diante daquele abandono infundado, das injúrias e acusações sofridas, pôs-se a questionar o por quê.

Aníbal em pleno regojizo de vindança, disse-a: "Eu avisei".

Mas, que aviso foi esse ? Que durante tanto tempo, apenas Clara foi vítima contumaz das ameças de seu companheiro, cujas mesmas éram sempre de um monólogo imperativo: "Se algum dia me deixa, juro que acabo contigo".

Naquela carência absurda de não se sentir amado, ou mesmo, capaz de amá-la, Aníbal torturava Clara com suas cobranças sexuais quase que diárias. Bastava que a companheira estivesse em seus períodos menstruais para que começasse o mau humor até as grosserias.

Nada era o suficiente para satisfazê-lo, existia sempre as desconfianças de infidelidade por parte de Clara, que jamais dava motivos para tal. Aquela paranóia permanente e as alucinações constantes enfraqueciam qualquer forma de diálogo aberto. Levando então, a companheira a ser prisioneira daquele homem inseguro, a fim de evitar descontentamento culminando em discussões intermináveis pela madrugada.

Muita e muitas vezes, sem clima romântico Clara permitia que Aníbal despejasse suas frustrações de macho na alcova fria, apenas para agradar seu instinto primitivo. Sendo, constantemente inócuo, dado as cobranças de orgasmos impossíveis diante daquele verdadeiro estupro consentido.

Aníbal acusava-a de frigidez por conta de uma imaginária traição, exigia explicações pela falta de desejo e a punia com as palavras mais cruéis ao imputá-la a falta de amor. Mas, como auferir qualquer defesa, ou diálogo ? Se ele mesmo utilizava das palavras numa tentativa de linguagem delirante. Não havia nada a ser dito, eis que ele próprio colocava palavras como verdade absoluta na boca da companheira.

Não obstante, todas às vezes em que Clara expressava seu desejo, entregando-se de corpo e alma ao companheiro, que desfrutava daquela paixão genuína na completude do êxtase dual, na manhã seguinte era motivo para mais um monólogo delirante de Aníbal.