... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

O Homem absurdo...

É, esse absurdo em não saber lidar com a perda de si, como bem coloca a autora do texto adiante em seu blog "reflexões e impressões", que o suicídio é pauta tantos estudos e preocupação dos especialistas. Afinal, que circunstâncias podemos prever tal iminência e salvar o suicida ?

Muitos especialistas e comportamento humano, psiquiatras e psicanalistas, pouco conseguem atentar precisamente para o perigo eminente de um paciente a beira do suicídio. Pois, há vários casos sem qualquer sinal evidente, como em alguns é explícito a vontade de morrer e assim, a intervenção é possível em tratamento. 

A depressão é a causa mais comum na maioria dos casos, entretanto a patologia do maníaco-depressivo (Bipolaridade) é extremamente propícia. Surtos psicóticos também, apontam como um fator desencadeante para o suicídio. Mas, a questão central como bem define Camus em "O Mito de Sísifo" é esse Homem Absurdo, em que o sofrimento torna-se tão insuportável diante da vida que a angústia o condena. Pontual, a definição do Mito pela Blogueira mencionada a seguir, na falta de sentido da vida. 

Muitas vezes, o suicídio é apenas uma defesa contra toda dor latente de um futuro incerto e solitário. Sentir-se um nada é perder o sentido. 

Então, como dar sentido à vida, se a vida torna insuportável ? Como lidar com as perdas e sonhos desfeitos ? Por que essa fragilidade em não saber lidar com as intempéries da vida ? Que dor é essa que nos faz desistir de viver ?

São muitas e muitas indagações sem respostas para o cerne do problema, em que a psicanálise e a farmacologia vem tentando impedir esse impulso de que chamo de morte voluntária. Mas, de uma coisa tenho certeza é a compaixão que poderá adiar um potencial suicida ao desfecho final da supressão de todo o sofrimento. 


"Perder-se em Si

“O homem não é nada em si mesmo. Não passa de uma probabilidade infinita. Mas ele é o responsável infinito dessa probabilidade.” Albert Camus

Suicídios me incomodam. Muito. Não apenas pela morte trágica, fora de hora, ou pelo rastro de desgraça e culpa que voa para todos os lados, mas por colar na nossa cara a seguinte realidade: dentro das finitas possibilidades, ceder ao insuportável da vida é, sim, uma opção. Não é natural, mas é humano.

Às favas com quem diz que há na natureza casos de suicídio. Pobre de você que acha graça no mito de que o escorpião, ao ser encurralado em uma roda de fogo, comete suicídio para não morrer agonizando. Estudos de comportamento animal já explicaram que o ferrão que vai por cima da cabeça é uma tentativa de se defender do perigo, não há auto ferroada. Não há "saída honrosa". O animal morre desidratado em poucos minutos em decorrência do calor. Cachorros que param de comer, quando perdem o dono, tampouco procuram o suicídio. Há a depressão, em que se perde a vontade de viver o cotidiano, mas não há a busca da morte com consciência. 

Não há nada de natural em se matar.

Durkhein tratou o suicídio em categorias diferentes e concluiu que suas causas, basicamente, decorrem sempre de contextos sociais. Fez correlações do ato suicida, que é extremamente individual, com a sociedade que o cerca. “Anomia” é o termo que explica o descompasso entre o significado da realidade e a falta de identificação do indivíduo com o mundo. O “eu” à deriva. Mas não há ninguém, em minha opinião, que tenha chegado mais próximo à explicação dessa angustia que Camus, em o Mito de Sísifo.

Quando despertou a ira de Zeus, Sísifo foi condenado, à eternidade, à tarefa de empurrar montanha acima uma grande pedra. Seus esforços são inúteis, pois quando a pedra alcança o topo ela rola pra baixo, fazendo com que se inicie a peleja novamente. Não há sentido algum na tarefa. E por sua vez, nessa alegoria, não há sentido algum na vida.

Para Camus, o homem vive fazendo planos para o amanhã, como se não fosse morrer. Mas a morte chega e o sentido de racionalidade, que pautou a vida, derrete. Ainda segundo ele, em poucos momentos de nossa vida tomamos consciência desse absurdo, e ele é invariavelmente angustiante. Então, como lidar com toda essa falta de sentido?

Para Camus o suicídio não é alternativa. Ele cita a revolta, a liberdade e até a paixão como respostas. Nunca o suicídio. Mas, na prática, é cada vez mais difícil se revoltar, se libertar ou apaixonar quando o “absurdo” deixa de ser intermitente pra se tornar algo permanente. Posso imaginar essa sensação de solidão e de desligamento num mundo onde é cada vez mais evidente a falta de sentido.

Digo que posso imaginar esse sentimento num exercício de compaixão, no sentido etimológico de co-sentimento, descrito por Kundera em A Insustentável Leveza do Ser [1]. Por compaixão, por ser humana, por ter consciência intermitente desse absurdo que é descrito, eu acredito que todos somos capazes de chegar a essa profundidade de angústia, onde há um abismo entre as contradições citadas por Durkheim, por exemplo.

Suicídios me incomodam. Muito. Porque me revolta a ponto de saber que somos capazes de cometê-lo, que a linha para o ato é tênue e, na maioria das vezes, invisível tanto para o suicida como para aqueles que o cercam. E porque, no fundo, bem no fundo, me lembra que tenho um medo maior nessa vida, do que a morte em si: é de me perder em mim mesma, e, por absurdo, não conseguir nunca mais voltar.


[1] “Todas as línguas derivadas do latim formam a palavra “compaixão” com o prefixo com — e a raiz passio, que originalmente significa “sofrimento”“. Em outras línguas, por exemplo, em tcheco, em polonês, em alemão, em sueco, essa palavra se traduz por um substantivo formado com um prefixo equivalente seguido da palavra “sentimento” (em tcheco: soucit; em polonês: wspol-czucie; em alemão: Mitgefühl; em sueco: med-känsla).

Nas línguas derivadas do latim, a palavra compaixão significa que não se pode olhar o sofrimento do próximo com o coração frio, em outras palavras: sentimos simpatia por quem sofre. Uma outra palavra que tem mais ou menos o mesmo significado: piedade (em inglês pity, em italiano pietà, etc.), sugere mesmo uma espécie de indulgência em relação ao ser que sofre. Ter piedade de uma mulher significa sentir-se mais favorecido do que ela, é inclinar-se, abaixar-se até ela.

É por isso que a palavra compaixão inspira, em geral, desconfiança; designa um sentimento considerado de segunda ordem que não tem muito a ver com o amor. Amar alguém por compaixão não é amar de verdade.

Nas línguas que formam a palavra compaixão não com a raiz “passio: sofrimento”, mas com o substantivo “sentimento”, a palavra é empregada mais ou menos no mesmo sentido, mas dificilmente se pode dizer que ela designa um sentimento mau ou medíocre. A força secreta de sua etimologia banha a palavra com uma outra luz e lhe dá um sentido mais amplo: ter compaixão (co-sentimento) é poder viver com alguém sua infelicidade, mas é também sentir com esse alguém qualquer outra emoção: alegria, angústia, felicidade, dor. Essa compaixão (no sentido de soucit, wspol-czucie,  Mitgefühl,  med-känsla) designa, portanto, a mais alta capacidade de imaginação afetiva — a arte da telepatia das emoções. Na hierarquia dos sentimentos, é o sentimento supremo.…” Milan Kundera"