... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Compaixão...

Por princípios morais e éticos, dei-o a chave da família numa forma de amor ao próximo. Não cabia-me àquela paixão.
(Claudine Garcy) 

 
Era fim de expediente, quando recebi aquele convite de Francisco para um drink. Havia um mês que estávamos de paquera com encontros tímidos, mensagens carinhosas e vários telefonemas todos os dias. Fechei o escritório e, logo fomos a um simpático barzinho brindar aquele possível romance. Entre sorrisos e encantamentos, chegou a hora de nos despedirmos, quando veio olho no olho, um beijo na boca suave e molhado. Já havia esquecido de como era bom beijar de língua e ser amada.

Fazia um tempo nesse jogo de sedução e tentativa de conhecimento. Estávamos sozinhos, recém separados e dispostos a uma nova paixão. Francisco além da idade compatível, era bonito, culto, inteligente, muito educado e gentil. Ou seja, era o meu número !

Sempre utilizando dos adjetivos no diminutivo como forma carinhosa em enviar-me mensagens, já no elevador ouvi o aviso sonoro ao celular me convidando para um próximo encontro e, ainda várias outras mensagens delicadas, aguçando minha expectativa.

No dia seguinte, matamos o trabalho para passar o dia juntos, feito dois adolescentes gazetando aula. Estava uma manhã quente e os raios de sol iluminava o seu rosto, ele me buscou rumo à um passeio, caminhamos de mãos dadas longe do nosso bairro, entramos numa livraria a procura da literatura existencialista incorporando o famoso casal parisiense Sartre e Beauvoir. Sentados num café trocamos olhares, carícias, beijos e filosofando sobre a distinção de paixão e amor. As horas passaram num piscar de olhos e chegara o momento de voltarmos as nossas realidades de compromissos.

Apesar dos momentos felizes daquele dia, em que trocamos confidências e cumplicidades, ao chegar em casa deparei-me com meu filho, triste e solitário, pela visita efêmera do pai e pude perceber que Francisco mesmo disponível, tinha uma ex-mulher e um filho pequeno, passando a mesma situação.

Não tardou para que eu refletisse, sobre a falta que aquela criança sentia da presença paterna. Era como se  roubasse sua atenção, numa intrusão deselegante. Afinal, assim, como pra mim a família era muito importante, imaginei no mesmo sentido o valor da sua família. Moralmente, não era justo alimentar um romance que mal começara, sem  a certeza de futuro. E, ainda era tempo de abrir mão dessa fantasia em prol do vínculo afetivo familiar. Então, abdiquei de Francisco em nome de um amor maior, a compaixão.

"Não há nada mais forte que a compaixão. Nem a sua própria dor pesa tão fortemente como a dor que se sente por alguém, pela dor de alguém amplificada pela imaginação e prolongada por centenas de ecos." Milan Kundera