... Em sentimentos que envolvem o universo feminino, pois “Não se nasce mulher: torna-se.” (Simone de Beauvoir)
A dualidade de sentimentos que envolvem o Universo Feminino.

São tantos os sentimentos em busca da identidade feminina, cujos contratempos das emoções transbordadas vão do êxtase secreto à cólera explícita...

Esse blog é um espaço aberto acerca de relatos e desabafos relativos as alegrias e tristezas, felicidades e angústias... Sempre objetivando a solidariedade e ajuda ao próximo.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Entre duas mulheres...

A noite transcorrera em claro, sentada ao canto, em total desamparo, fumando o bom tabaco amigo das horas solitárias, Jaqueline esvaziava seu pranto, aquela dor profunda que machucava seu âmago parecia nunca mais passar. Em conseqüência da depressão reativa que amargara com a perda de Augusto, trocava os dias pelas noites, comum a esse tipo de enfermidade, passava os dias dormindo e as noites refletindo, melancólica relembrando  seus momentos em que julgava ter sido feliz noutros tempos.

Mal raiava os primeiros clarões do dia, Jaqueline cansada e vazia de todo pranto que jorrara, iniciava seu sono profundo, capaz de trazer-lhe a presença de Augusto. Ali, em muitos encontros o seu amado permanecia ao seu lado e esses devaneios eram o suficiente para mantê-la ainda viva. Mas, ao despertar, a realidade jogava-a ao limpo novamente.

Não tardou, naquela manhã que se mantinha em seus sonhos delirantes, ao assustar-se com o barulho agonizante do telefone ao chamá-la à realidade. Esgotada pelas poucas horas de sono, sem pensar, atendeu subtamente o chamado. Era Carla Simone do outro lado da linha a dizer-lhe impropérios, ofensas e xingamentos. Obviamente, por insegurança quanto aos sentimentos de Augusto que apesar de manter-se em relacionamento com a injuriosa, havia passado o final de semana em companhia de Jacqueline.

Carla Simone não era apenas uma hidra na aparência desgastada, com os cabelos ressecados e arrepiados, testa exuberante, olhos opacos, dentes irregulares com retração de gengiva, pele manchada, era além de ferir a vista, má e perversa. Pois, ciente da doença de Jaqueline a afrontava sempre que se encontrava desconfiada da fidelidade de Augusto.

Noutro sentido, Jaqueline apesar da tristeza profunda, ainda se mantinha bela na aparência, era uma mulher jovem e atraente, cabelos longos, olhos brilhantes, sorriso perfeito, com virtudes e caráter nobre. Mas, não fora capaz de prender Augusto, perdendo-o para Carla Simone que mantinha a posse e a propriedade daquele homem inseguro que transitava entre os sentimentos de ambas.

Naturalmente, Augusto, ainda permanecia encantado com a beleza estética da frágil Jaqueline, cuja sua baixa-estima a julgava inalcançável e devido a sua insegurança por força da idade a abandonara. Enquanto, que ao apagar das luzes Carla Simone desempenhava todo o papel de uma amante profissional, permitindo-o saciar as mais loucas e imagináveis fantasias sexuais, como uma verdadeira escrava ao dispor de seu Soberano.

Tolo e iludido Augusto, Jaqueline lhe fora fiel e leal por todos esses anos, enquanto Carla Simone passava de amante a amante para se auto-afirmar como mulher desejante.

Talvez, Lacan tivesse toda razão em atestar que Augusto não conseguia desejar a amada Jaqueline, como também não conseguia amar a desejada Carla Simone. Pois, "Os homens não conseguem desejar a mulher que amam, nem amar a mulher que desejam.”


(Claudine Garcy)